por Jorge Pascual Díaz
Em 15 de agosto de 1936, as tropas rebeldes,
sob o comando do General Yagüe, tomaram a cidade de Badajoz, desencadeando uma
repressão sádica e desmedida.
Faz menos de um mês que alguns soldados se
revoltaram, dando um golpe contra o Governo da Segunda República. Este golpe
não triunfou, graças ao fato de que em muitas cidades do país a população civil
e as tropas leais pararam a revolta, iniciando a Guerra Civil.
Depois disso, o rebelde general Francisco
Franco assume o comando das tropas africanas e, ajudado pelas aeronaves
fascistas nazistas alemãs e italianas, atravessa o Estreito de Gibraltar.
Apoiadas pelos bombardeiros de Hitler e Mussolini, as tropas rebeldes partiram
para o norte para tomar Madrid; em 1 de agosto, o exército de Franco alcançou e
assumiu a cidade de Sevilha.
É então que Franco decide avançar pela
Extremadura, para unir as áreas ocupadas pelos fascistas a oeste e controlar a
fronteira entre Portugal e Espanha. As ordens são claras para os rebeldes: eles
devem agir com severidade.
Pouco depois da captura de Mérida, o exército
de Yagüe instalou-se em frente a Badajoz; Após três dias de bombardeamentos na
cidade, em 14 de agosto de 1936, começou o ataque à cidade...
Em 7 de Agosto de 1936, a Coluna da Morte, as
tropas golpistas comandadas por Queipo de Llano, acompanhadas por aviões
Alemães e Italianos, chegaram a Almendralejo. Aqui, as tropas leais à República
não oferecem grande resistência e retiram, exceto cerca de 40 milicianos que se
entrincheiraram na torre da Paróquia da Purificação. Por esta razão, os
comandantes fascistas decidem queimar e canhonear a paróquia, com os
resistentes lá dentro.
Estima-se que cerca de 1.000 civis foram
assassinados momentos após a captura de Almendralejo pelas mãos do exército de
Franco.
Em 10 de agosto, a Coluna da Morte consegue
tomar Mérida, expulsando os Republicanos e unindo assim os territórios
controlados pelo lado rebelde. Depois, o General Yagüe assume o comando das
tropas e avança em direção a Badajoz.
Muitas pessoas da zona tentaram refugiar-se em
Portugal antes da chegada dos fascistas, mas a ditadora Oliveira Salazar apoiou
as tropas do exército de Franco, permitindo o seu rápido avanço pelo oeste e
entregando as pessoas que chegaram à fronteira portuguesa fugindo do guerra.
Logo após a captura de Mérida, o exército de
Yagüe se estabeleceu em frente a Badajoz; após três dias de bombardeios na
cidade, em 14 de agosto de 1936, o assalto a ela começou. A resistência
republicana não foi suficiente e, após poucas tentativas, os militares
fascistas conseguiram penetrar no muro.
A partir desse exato momento as tropas do genocida General Yagüe realizaram um dos maiores massacres da Guerra Civil na capital Badajoz. Os soldados de Franco assassinam na rua os milicianos que, tendo jogado seus rifles no chão, se renderam em seu rastro; eles até assassinaram 43 deles que ficaram feridos e indefesos no hospital. Por volta das 12 da noite o fascismo acabou prevalecendo em Badajoz.
Praça de touros de Badajoz, 1936
Estima-se que 4.000 pessoas foram assassinadas
pelas tropas de Yagüe, o Açougueiro de Badajoz, que em entrevista reconheceu os
fatos e o número de assassinatos.
As horas seguintes foram horripilantes para a
História; algumas crônicas dizem que os corpos de civis assassinados foram
empilhados nas ruas às centenas. Crianças, mulheres e homens foram levados para
a Praça de Touros, a princípio para serem fuzilados ali, mas depois as
instalações foram utilizadas para abrigar todas aquelas pessoas suspeitas de
não serem fiéis ao levante fascista ou que poderiam ser de esquerda,
homossexuais, sindicalistas, .., e depois atirou neles no cemitério.
Enquanto os prisioneiros civis eram levados ao
muro do cemitério para serem assassinados, os que permaneciam na Praça de
Touros eram humilhados e torturados junto com os corpos que os rebeldes estavam
removendo. Os corpos foram levados para as proximidades do próprio cemitério,
onde foram cremados e enterrados em uma vala comum.
Estima-se que 4.000 pessoas foram assassinadas
pelas tropas de Yagüe, o Açougueiro de Badajoz, que em entrevista reconheceu os
fatos e o número de assassinatos.
Quando me lembro do que aconteceu, várias
coisas vêm à mente, uma delas é o fato comovente de que essa mesma coisa
continua a acontecer e a se repetir em todo o mundo sob os mesmos pretextos e
pelas mesmas razões: ódio, intolerância, supremacia.., a falta de humanidade e
fraternidade. A segunda coisa que me passa pela cabeça é que, talvez, estas
histórias fatais continuem a repetir-se porque não conseguimos aprender e
recordar a dor que causaram há tempos.
O genocídio de Yagüe provocou reações
desfavoráveis na imprensa internacional; por esta razão, o lado fascista
empreendeu campanhas de propaganda contra os republicanos
Sou da Estremadura, de Plasencia, e raramente
tinha ouvido falar do que tinha acontecido na terra onde vivo; é difícil
aprender com a História quando a memória é alterada e não se fazem esforços
para a recuperar. Em Plasencia e Cáceres o Golpe fascista triunfou, ambas as
cidades permaneceram fortemente militarizadas e sacos e caminhadas foram
realizados durante os primeiros meses da Guerra. Em Cáceres, por exemplo, o
governo local foi substituído e as greves que a classe trabalhadora empreendeu
contra o regime militar foram reprimidas; em Plasencia, a Praça de Touros
também se tornou um campo de concentração e os detidos foram forçados a fazer
trabalhos forçados no que hoje é o Parque de los Pinos.
O massacre de Badajoz foi um episódio
terrível, tanto que um oficial nazista presente, Hans von Funk; aconselhou
Hitler em um relatório a não enviar tropas alemãs para a Espanha porque “a
selvageria do exército rebelde minaria o moral dos soldados nazistas”.
Além disso, o genocídio de Yagüe provocou
reações desfavoráveis na imprensa internacional; por esta razão, o lado
fascista empreendeu campanhas de propaganda contra os republicanos,
atribuindo-lhes, por exemplo, a autoria dos atentados de Durango, Gernika,
Castellón... O silêncio também foi imposto; esses acontecimentos nunca tinham
acontecido, milhares de assassinatos foram silenciados e relatórios e atas
destruídas.
Apesar de tudo, a História pode voltar a
chegar até nós; por vezes fá-lo sob a forma de dor e sofrimento, como o
daquelas pessoas que foram torturadas, ou daquelas que nunca puderam
despedir-se das suas famílias, daquelas cujas cidades, as suas casas e as suas
vidas foram destruídas aqueles que nunca foram autorizados a procurar seus
entes queridos e que por 40 anos nem sequer foram autorizados a falar sobre
isso.
Hoje os responsáveis por esses crimes contra a
humanidade: Yagüe, Asensio, Mola, Queipo de Llano.., são homenageados com ruas
e praças. Alguns que ainda estão vivos são reconhecidos pelos “méritos” desses
horrores, enquanto os seus crimes permanecem sem julgamento. Por seu lado, o
muro do cemitério de Badajoz onde os buracos de bala serviam de lembrança, foi
coberto pela Câmara Municipal e milhares de pessoas com nomes e apelidos
permanecem silenciadas sob as terras deste país.
Pouco podemos fazer por todas as vítimas que sofreram a guerra, mas podemos restaurar a memória, para ajudar todos aqueles que ainda lamentam a perda e para aprender e garantir que coisas como esta nunca se repitam em qualquer parte do mundo, porque se se repetissem apagaríamos dolorosamente a dor da História.
Ver também: 82 anos após o massacre de Badajoz, o
esquecimento continua
*
A matança de Badajoz
por Mário Neves, jornalista do Diário de Notícias
“Badajoz, 17. – Vou partir. Quero deixar Badajoz, custe o que custar, o mais depressa possível e com a firme promessa à minha própria consciência de que não mais voltarei aqui. Por muitos anos que me conserve na vida jornalística, jamais se me deparará, por certo, acontecimento tão impressionante como este que me trouxe a terras abrasadoras de Espanha e me conseguiu desafinar por completo os nervos. Não se trata de uma piuguice ridícula, dum sentimentalismo excessivo. Basta ter uma mediana formação moral e estar sinceramente fora das paixões que se chocam para não poder presenciar a frio as cenas horríveis desta guerra civil tremenda que ameaça devorar a Espanha, destruindo para sempre o amor e semeando ódios bem fundos.
Antes de abandonar, porém, esta cidade, onde a
paz não voltará com certeza a reinar tão cedo – digo paz e não sossego -,
desejo abordar ainda um aspecto deste extraordinário assunto. Entrei aqui
ontem, às 10 horas da manhã. Os cadáveres que vi não eram os mesmos que hoje
encontro, em locais diversos. As autoridades são as primeiras a divulgar, para
que se veja como é inflexível a sua justiça, que as execuções são em número
muito elevado. Que fazem então dos corpos? Onde poderão enterra-los em tão
curto prazo? Quem disporá de tempo para o fazer? Decerto que os serviços de
comando deste exército que ocupa agora a cidade não deixou de pensar numa
solução. Várias pessoas a quem me dirijo, para tentar satisfazer a minha
curiosidade, parecem temer dar-me qualquer resposta.
O acaso, um mero acaso, põe-me em contacto com
um sacerdote, que, ao saber-me português, me faz o melhor acolhimento e
proporciona a solução para a minha incógnita: os mortos são tantos que não é
possível dar-lhes sepultura imediata. Só a incineração em massa conseguirá
evitar que os corpos, acumulados, se putrefaçam, com grande perigo para a saúde
pública. E foi essa operação macabra que hoje começou a realizar-se às 6 horas
da manhã no cemitério, provocando a grande fumaceira que, quando vinha do Caia,
observei num ponto que me indicaram como sendo o cemitério.
Graças à companhia deste cura amável, junto do
qual não mais encontrei dificuldades, posso ir até ao cemitério da cidade, que
fica a cerca de dois quilómetros, próximo da estrada de Olivença. É um
cemitério simples de província, com o clássico muro branco e um largo portão de
ferro, em que a vigilância dos guardas é hoje bastante apertada. Mas nenhuma
porta se fecha hoje, diante de nós, com este salvo-conduto humano, que
providencialmente se nos deparou.
Há dez horas que a fogueira arde. Um cheiro
horrível penetra-nos pelas narinas a tal ponto que quase nos revolve o
estômago. Ouve-se de vez em quando uma espécie de crepitar sinistro da madeira.
Nenhum artista, por mais genial que fosse, seria capaz de reproduzir em tela
esta impressionante visão dantesca.
Ao fundo, num degrau cavado na terra, com o
aproveitamento de uma diferença de nível, encontram-se, sobre traves de madeira
transversais, semelhantes às que se usam nas linhas férreas, numa extensão
talvez de quarenta metros, mais de 300 cadáveres, na sua maioria carbonizados.
Alguns corpos, arrumados com precipitação, estão totalmente negros, mas outros
há em que os braços ou as pernas, intactos, escaparam às labaredas provocadas
pela gasolina.
O sacerdote que nos conduz compreende que o
espectáculo nos incomoda e tenta explicar-nos:
– Mereciam isto. Além disso, é uma medida de
higiene indispensável…
O fumo que se evola deste montão disforme já
não é denso. Aqui e ali se ergue ainda uma colunazinha branca, que vai
espalhando pelo céu, num ambiente louco de calor, um cheiro indescritível.
Temos de sair. De um lado, 30 cadáveres de paisanos aguardam a sua vez,
enquanto, em frente, 23 corpos de legionários, aqueles que tombaram sob o fogo
intenso das metralhadoras, na brecha da Puerta de la Trinidad, estão também à
espera de que chegue a hora do seu solene enterramento.
À porta do cemitério, um camião traz mais
quatro corpos, que foram recolhidos algures e, conduzidos pelos guardas em
carrinhos de mão, se vão juntar aos trinta que serão mais tarde incinerados.
– Mário Neves.”
“Diário de Lisboa” de 15 de Agosto de 1936, 2ª
tiragem. Ler Aqui
Diário de Lisboa” de 16 de Agosto de 1936. Ler Aqui




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