Por Thierry
Meyssan
A Inteligência Artificial é algo que faz muito
depressa aquilo que nos leva muito tempo. O seu impacto é o da robotização dos
processos intelectuais. Enquanto os computadores alteraram o mundo do trabalho
para os colarinhos azuis, a IA irá alterá-lo para os colarinhos brancos. Desde
já, assistimos a uma série de desastres, não por causa das IAs, mas por causa
daqueles que a manobram. Devemos verificar, não a qualidade das nossas IAs, Devemos
verificar, não a qualidade das nossas IAs, mas sim a inteligência dos que nelas
confiam.
As inteligências artificiais não são
cérebros, mas super-computadores capazes de absorver uma quantidade infinita de
dados. Eles são desprovidos de emoções, de intenção e de vontade. Eles não
podem modificar a sua programação senão para lhe juntar novas capacidades de
cálculo.
Os nossos média (mídia-br) são assombradas por
um debate sobre o valor e os perigos das Inteligências Artificiais (IA). No
entanto, sob influência do escritor de ciência-ficção Eliezer Yudkowsky,
tornado num guru de Silicon Valey, eles focam-se numa abordagem mítica, a da
máquina que tomava ascendente sobre o homem e o ia destruir. O que não é mais
do que uma “reprise” dos temas do golem ou de Frankenstein. Ora, não podendo
uma inteligência artificial criar, mas apenas reproduzir a grandíssima
velocidade, este perigo está fora de questão.
Desde logo, o perigo que enfrentamos é o de
nos deixarmos fascinar pela máquina. Muitas pessoas mantêm laços afectivos com
chatbots. Estes dizem-lhes o que elas querem ouvir e encorajam-nas quanto às
suas falhas. O que é um problema já bem conhecido dos psicólogos.
A utilização da IA pelos Estados-Maiores
militares começou nos anos de 90, durante a Guerra do Golfo, para resolver
problemas logísticos processando um grande número de factores de uma só vez.
Pouco a pouco, dotaram-se de muitas armas de IA. Os problemas só surgiram
quando se apoiaram na IA para tomar decisões em tempo real, quer dizer, desde
2024.
A França decidiu dotar-se de uma Agência
Ministerial para a Inteligência Artificial de Defesa (AMIAD), em Março de 2024,
muito embora ela só tenha visto a luz do dia dois meses mais tarde. Esta
agência fixou-se um limite : jamais confiar à IA uma arma, ou seja, a
capacidade de ordenar matar.
Pelo contrário, o Pentágono, que não segue a
mesma ética, acaba de criar o «Projecto Meridian» [1]. Após o
conflito que o opôs à empresa Anthropic, a propósito dos limites que ela
entendia impor ao uso da sua IA, Claude, o Pentágono não quer prestar contas
seja a quem for. Encarregou, pois, Elon Musk e Palmer Luckey (o criador dos
capacetes de realidade virtual) de conceber os próximos desenvolvimentos.
Foram registadas várias intoxicações. Em todos
os casos que conduziram a catástrofes, embora fossem facilmente evitáveis. Em
cada caso, os responsáveis acreditaram na IA a ponto de lhe perguntar por
aquilo a que ela não podia responder.
O que é chocante é que altíssimas
personalidades, pouco seguras quanto ao seu próprio discernimento, se deixaram
manipular facilmente pelas IAs. Pelo contrário, pessoas que têm «os pés
assentes na terra» mostram-se imediatamente cépticas quando uma IA lhes diz
disparates.
• Durante a resposta à Operação “Torrente de
Al-Aqsa” (7 de Outubro de 2023), as Forças de Defesa de Israel (FDI) recorreram
a IAs para determinar os alvos dos seus bombardeamentos. Elas estabeleceram o
seu objectivo indicando que as perdas colaterais eram insignificantes. A
princípio, as IAs eram ajustadas para não arriscar mais de duas vítimas civis
por alvo a destruir. Depois, rapidamente este limite foi aumentado, até que as
IAs não mais o tivessem em conta.
Essa mudança de utilização concretizou-se por
uma mudança de IA. Passaram da Habsora para a Lavender. Já não se tratava de
avaliar as possíveis perdas colaterais, mas de se concentrar nos 37. 000
militantes presumidos do Hamas e da Jihad Islâmica.
Os oficiais que validaram os disparos
preocupavam-se unicamente em verificar se os alvos eram de facto membros de
organizações palestinianas. Eles não cometeram um genocídio de maneira
intencional. Eles simplesmente deixaram as IAs fazê-lo, sem se quer se darem
conta. Quando abriram os olhos, já era tarde demasiado tarde [2].
Ora, o que distingue um Exército civilizado de
um grupo de bárbaros, é velar pela proteção dos civis. É certo, membros do
governo repetiam-lhes que todos os Palestinianos são terroristas, mas a
selvajaria ambiente não os dispensava da sua responsabilidade. Por mais
chocante que isso possa parecer, eles cometeram um genocídio por inadvertência.
Nestes casos, não há erro nenhum erro, nem das
IA, nem dos operadores. O crime foi cometido por inconsciência. Segundo
investigações de jornalistas, parece que quanto mais jovens e inexperientes
eram os oficiais, mais facilmente esqueceram a realidade e causaram o massacre
de civis.
• Durante a « guerra dos 12 dias » (13 a 24 de
Junho de 2025), os Ocidentais recorreram à Agência Internacional de Energia
Atómica (AIEA) para saber em que ponto estavam as pesquisas atómicas iranianas.
O seu Director, Rafael Grossi, consultou então a sua versão do Mosaic, uma IA
da Databricks. Ela confirmou-lhe que Teerão estava subitamente à beira de
fabricar a bomba atómica ; uma opinião que era amplamente contestada pelos seus
próprios inspectores [3]. As
declarações intempestivas de Grossi quase levaram a uma resposta nuclear dos
Estados Unidos.
A Databriks é dirigida pelo Irano-Sueco-Americano
Ali Ghodsi. Muito embora ele não esteja envolvido em política, é membro da
Israel Collaboration Network (ICON), uma rede de informáticos. A versão do
Mosaic instalada em Viena para a AIEA foi feita por um grupo de engenheiros
israelitas.
Há duas maneiras de interpretar este
acontecimento. Ou pensamos que Rafael Grossi se deixou manipular pela Mossad,
ou constatamos que ele era bastante influenciável para seguir uma máquina em
vez dos seus próprios especialistas.
• Em Dezembro de 2025, Donald Trump questionou
Grok, a IA de Elon Musk, sobre a reacção dos Venezuelanos a um eventual
sequestro do Presidente Nicolás Maduro. Era um projecto de operação montado
pela CIA e pelo SouthCom. A resposta da IA, segundo a Time Magazine ,
foi que o povo Venezuelano ficaria encantado. Donald Trump teria lançado a
operação com base neste único parecer [4].
Porquê solicitar outras opiniões quando uma IA
é capaz de sintetizar o pensamento de todos ? Muito simplesmente porque uma IA
não faz mais do que formular a média do pensamento que verifica. E nenhuma
média é a verdade. As IAs são apenas algoritmos. Elas não reflectem e
contentam-se em reformular o pensamento que se quer explorar. Uma pessoa
familiarizada com a população venezuelana teria respondido tendo em mente a
complexidade da cultura do país. Ela não teria certamente, nem aprovado, nem
rejeitado a pergunta do Presidente Trump, mas sublinhado que as reacções dos
Venezuelanos dependeriam da sua filiação social e regional, bem como das
circunstâncias do acontecimento.
• Recentemente, o Presidente russo, Vladimir
Putin, explicou que os possíveis problemas com a IA não são novos. Eles já
existiam com máquinas muito menos sofisticadas.
Ele contou no Clube Valdai que, durante a
Guerra Fria, em 1983, os satélites soviéticos haviam observado o disparo de
cinco mísseis nucleares pelos Estados Unidos. O Coronel Stanislav Petrov, que
estava encarregue da resposta soviética, pôs imediatamente em dúvida o que as
máquinas lhe diziam. Ele conferiu primeiro antes de ordenar uma resposta.
Acertou em cheio. As máquinas tinham-se enganado, os EUA não tinham
desencadeado a guerra nuclear e ele também não iniciou [5].
É efectivamente o mesmo problema. Ainda somos
os mestres das máquinas, mas a nossa desatenção, a nossa incompetência ou o
nosso orgulho podem levar-nos a cometer pequenos erros que, a muito curto
prazo, terão consequências terríveis.
Verdadeiramente falando, ninguém pode ser
manipulado por uma IA, muito simplesmente porque uma IA não pode ter intenção
ou vontade própria, mas corremos todos o risco, por preguiça, de dar crédito ao
que nos diz uma máquina insuficientemente regulada.
Notas:
[1] «Memorandum Commissioning of Project
Meridian: The Future of Warfar», Department of War, September 30, 2026.
[2] « A mass assassination factory’ :
Inside Israel’s calculated bombing of Gaza » and « ‘Lavender’ : The AI machine directing Israel’s
bombing spree in Gaza »,
Yuval Abraham, +972Magazine, November 30, 2023 and April 3, 2024.
[3] “Guerra dos 12 dias : as
revelações anti-desinformativas de Alastair Crooke”, Alfredo Jalife-Rahme,
Tradução Alva, La Jornada (México) , Rede Voltaire,
24 de Julho de 2025.
[4] «What Trump Has Built», Eric Cortellessa, Time Magazine,
October 11, 2026.
[5] «Meeting of Valdai Discussion Club», Kremlin, October 1, 2026.

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