Gonçalo Ribeiro Telles em entrevista 2017: mantém-se actual
Nos primeiros 15 dias de agosto de 2003
arderam cerca de 300 mil hectares no nosso País. Os fortes incêndios de
Oleiros, Sertã e Aljezur fizeram as manchetes dos jornais (e da VISÃO) e os
temas são sempre os mesmos: a floresta de eucaliptos e pinheiros, as falhas da
proteção civil, a falta de condições de trabalho dos nossos bombeiros. Passaram
14 anos e continuamos a falar do mesmo. Por isso esta entrevista que, na
altura, fizemos a Gonçalo Ribeiro Telles, arquitecto paisagista e “pai” do
ecologismo português, não perdeu um pingo de atualidade. Vale a pena voltar a
ler as suas palavras e perceber como nada aprendemos com a História, nenhuma
lição retiramos dos nossos erros, continuando ano após ano na permissividade da
celebração do eucaliptal.
"VISÃO: Quais são as causas desta
calamidade?
GONÇALO RIBEIRO TELLES: A grande causa é um
mau ordenamento do território, ou seja, a florestação extensiva com pinheiros e
eucaliptos, de madeira para as celuloses e para a construção civil. O problema
foi uma má ideia para o País, a de que Portugal é um país florestal. Lançou-se
a ideia de que, tirando 12% de solos férteis, tudo o resto só tem
possibilidades económicas em termos de povoamentos florestais industriais.
V: De onde vem essa ideia?
GRT: É uma ideia antiga que começou nos anos
30 com a destruição, também por uma floresta extensiva, das comunidades de
montanha do Norte de Portugal, que tinham a sua economia baseada na pecuária.
As dificuldades por que passava a agricultura deram origem a que se quisesse
transformar grandes áreas do País já são 36% em florestas industriais. Esta
campanha transformou a silvicultura, que era a profissão básica, numa profissão
de florestal, para dar resposta aos grandes interesses económicos. Houve ainda
outra campanha, a do trigo, em que se organizou o País em função desta cultura,
que tinha por base o mito da independência de Portugal em pão. Além das terras
para o trigo, tudo o resto, num sistema de agricultura economicista, tem que
ser floresta, produção de madeira. O resultado está à vista.
V: Passámos então a ser um País florestal.
GRT: Os romanos dividiam o território em três
áreas, além da urbe: o ager, que era o campo cultivado intensamente; o saltus,
a pastagem, a agricultura menos intensiva; e a silva, a mata de produção de
madeira e de protecção. Todo esse ordenamento foi transformado, acabou-se com a
silvicultura e começou o culto da floresta, que não temos. Se formos ao campo
perguntar onde fica a floresta, eles só conhecem a do Capuchinho Vermelho,
porque o que têm na sua terra são matas, matos, etc. No século XIX, o pinheiro
bravo veio para responder às necessidades do caminho-de-ferro que estava em
lançamento. Mais tarde é que vem a resina, a indústria da madeira e a celulose.
O pior é que se transformou o País num território despovoado e que, dadas as
características mediterrânicas, arde com as trovoadas secas.
V: Como deve ser reordenado o território?
GRT: O País está completamente desordenado.
Por um lado, uma política agrícola que não considera o mosaico mediterrânico,
com agricultura, pecuária, regadio e horticultura, os matos, as matas, todo um
mosaico interligado e ordenado. Em Mação, por exemplo, aquela população vivia
tradicionalmente da agricultura que fazia nos vales e nas naves.
E na serra existiam os matos pastados pelas
cabras, pelos bovinos. Dos matos retirava-se o mel, a aguardente de medronho, a
caça e as aromáticas.
A França, nas zonas de mato, tem uma política
de aromáticas de abastecimento da indústria de perfumes. A questão, hoje, é
criar uma mata que produza madeira, mas que se integre nos agro-sistemas, uma
paisagem sustentada, polivalente e nunca repetir, como já querem, a plantação de
eucaliptos e de pinhal. As populações estão fartas disso e devem ser chamadas a
depor. E tem que haver duas intenções ecológicas fundamentais: a circulação da
água e a circulação de matéria orgânica, aproveitando-a para melhorar as
capacidades de retenção da água do solo.
V: A excessiva divisão do território (em meio
milhão de proprietários) dificulta as limpezas florestais?
GRT: A limpeza da floresta é um mito. O que se
limpa na floresta, a matéria orgânica? E o que se faz à matéria orgânica,
deita-se fora, queima-se? Dantes era com essa matéria que se ia mantendo a
agricultura em boas condições e melhorando a qualidade dos solos. E, ao mesmo
tempo, era mantida a quantidade suficiente na mata para que houvesse uma maior
capacidade de retenção da água.
Com a limpeza exaustiva transformámos a mata
num espelho e a água corre mais velozmente e menos se retém na mata, portanto
mais seco fica o ambiente.
V: Se as matas estivessem bem limpas ardiam na
mesma?
GRT: Ardiam na mesma e a capacidade de
retenção da água não se dava, passava a haver um sistema torrencial. A limpeza
tem que ser entendida como uma operação agrícola. Mas esta floresta
monocultural de resinosas e eucaliptos, limpa ou não limpa, não serve para mais
nada senão para arder. Aquela floresta vive para não ter gente. Se houvesse lá
mais gente aquilo não ardia assim.
V: Defende uma mata com que tipo de madeiras?
GRT: Madeiras para celulose é difícil porque
temos agora uma forte concorrência no resto do mundo. Os eucaliptais, para
serem mais rentáveis, só poderiam sê-lo no Minho que é onde chove mais de 800
ml ao ano. O eucalipto precisa de muita água e Portugal não pode concorrer com
o Brasil e a África em termos de custo. Só se transformarmos o Minho num
eucaliptal. Pode-se optar pelas madeiras de qualidade da cultura mediterrânica
como todos os carvalhos, o sobreiro, a azinheira e pinhais criteriosamente distribuídos.
V: Não são tão rentáveis…
GRT: O carvalho, por exemplo, acompanha toda uma panóplia de rendimento como a cortiça, a pecuária, a produção do mel, das aromáticas, a caça.
V: Há uma visão limitada do que pode ser rentável na floresta?
GRT: É muito bom para as celuloses e muito mau
para as populações e para o País, que está devastado. O mundo rural foi
considerado obsoleto, como qualquer coisa que vai desaparecer. Veja-se o
disparate que foi a política de diminuição dos activos na agricultura.
Contribuiu para o aumento dos subúrbios, dos bairros de lata, da emigração.
Trouxe alguma coisa melhor para a província? Não. Apenas um grande negócio para
as celuloses e para os madeireiros.
V: As populações estão alertadas para essa
multiplicidade de culturas?
GRT: Completamente alertadas; quem parece que
não está são os políticos e os técnicos. Porque se perderam numa floresta de
«números». Quem conhece as estatísticas diz que somos o terceiro país da Europa
em número absoluto de tractores, só ultrapassados pela Alemanha e pela França.
Somos um país de tracto res porque os subsídios dão para isso, porque interessa
à importação dessa maquinaria toda. As pessoas foram levadas a investimentos,
em nome do progresso, que não tinham qualquer racionalidade.
V: No caso de se aumentarem as áreas
agrícolas, temos agricultores para tratar delas?
GRT: Temos. Estão desviados, foram convencidos
de que eram uns labregos. Houve toda uma política de desprestígio do mundo
rural tendo por base a ideia de que era inferior ao mundo urbano. Despovoámos
os campos e essa gente toda veio para a cidade. Hoje, enfrenta o desemprego.
Esqueceram-se que o homem do futuro vai ser cada vez mais o homem das duas
culturas, da urbana e da rural. Hoje, 30% das pessoas que praticam a
agricultura económica na Europa não são agricultores. É gente que vive na
cidade, tem lá o seu escritório e tem uma herdade no campo onde vai aos
fins-de-semana. A expansão urbana aumenta e não podemos viver sem a agricultura
senão morremos à fome.
V: Que pode fazer o Estado, uma vez que 84% da
nossa floresta está nas mãos dos proprietários?
GRT: Pode fazer planos integrados de
ordenamento da paisagem. O Estado não domina totalmente a expansão urbana
quando quer, não faz planos gerais de urbanização? Não se devia poder plantar o
que se quer porque também não se pode construir o que se quer. Constrói-se mal
porque, às vezes, o Estado adormece. Faltam planos gerais de ordenamento de
paisagem, que a actual legislação não contempla, apesar de já ter instituído a
Estrutura Ecológica Municipal através do Decreto-Lei 380/99. A Lei de Bases do
Ambiente tem os conceitos e os princípios para um plano de ordenamento de
paisagem, está lá tudo escrito, mas nunca foram regulamentados.
V: A actual legislação favorece as
monoculturas?
GRT: Favorece porque a chamada «modernização»
da agricultura é um escândalo de incompetência. As universidades de Agronomia
em Portugal tiveram um período de grande pujança intelectual no fim do século
XIX e no princípio do século XX. Agora, parece terem-se rendido ao
economicismo.
V: Deve o Estado apoiar com subsídios e
benefícios fiscais?
GRT: Com certeza. O proprietário está com a
corda na garganta, faz aquilo que lhe der dinheiro já para o ano. Por isso, têm
que se estabelecer limites e normas a sistemas, não a culturas, mas sem tirar
às pessoas a liberdade de correr riscos.
V: E promover o associativismo florestal, como
em Espanha, por exemplo?
GRT: Abrimos um bom caminho com as
«comunidades urbanas» que estão na forja, pequenas áreas metropolitanas de
freguesias e aldeias, acho muito bem. Estamos numa cultura mediterrânica e não
se pode traduzir o desenvolvimento em unidades economicistas de produção em
grande volume de dois ou três produtos. É da polivalência, da multiplicidade de
produtos e da harmonia da paisagem que resulta a possibilidade de ter uma
população instalada em condições de dignidade.
Essas comunidades é que deverão fazer a
síntese de todos os interesses. Porque quando começamos a destacar os
interesses por sector, a visão sistémica desaparece e os interesses da
comunidade passam para empresas que ultrapassam as suas fronteiras comprometendo
a sustentabilidade da região.
Não defendo que haja um sector agrícola e um
sector florestal, para mim é exactamente o mesmo: a agricultura completa a
floresta e a floresta completa a agricultura.
V: O Partido Socialista voltou a falar da
regionalização como forma mais eficaz de ordenar o território. Concorda?
GRT: Defendi uma regionalização há muito
tempo, que deu origem a um documento de que os grandes partidos fizeram muita
troça. Dividia o País em cerca de 30 regiões naturais, áreas de paisagem
ordenada, que estavam já organizadas histórica e geograficamente.
São as terras de Basto, as terras de Santa
Maria, as terras de Sousa, a Bord’água do Tejo, etc. O País é isso e não é
outra coisa. Esta regionalização podia contribuir para a efectivação dos planos
de ordenação da paisagem, com uma participação democrática das respectivas
populações.
V: O Governo acordou tarde para a calamidade
dos incêndios?
GRT: Que podia o Governo fazer? O mal vem de
longe. Mas não estou seguro de que se vá enveredar agora pelo caminho certo. Já
estão a dizer que querem reflorestar tudo como estava. Fico horrorizado quando
ouço isso. Significa que querem voltar aos pinheiros e aos eucaliptos.
Perguntem às vítimas dos incêndios que ficaram sem as casas se querem outra vez
pinheiros à porta. Destruíram as hortas… Porque ardem as casas? Porque o
pinheiro está no quintal.
V: Olhando para o futuro, os incêndios podem
constituir uma oportunidade para se reorganizar o território?
GRT: Também o terramoto permitiu que o Manuel
da Maia, a mando do Marquês de Pombal, fizesse a Baixa lisboeta. Não desejo um
terramoto, mas não percam esta oportunidade. O futuro do País e da sua
identidade cultural e independência está em causa.


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