Jorge de Sena:
Dizia ele que
deixara a vida
pelo mundo em
pedaços repartida.
Há quatrocentos anos
que isso foi.
Mas desde então e
sempre o que no mundo
se repartiu para não
voltar
é o que – a mais que
um poeta e dos maiores –
poderia ter sido o povo português.
*
Solúvel e insolúvel
este povo.
Na memória dos
outros e na sua mesma.
*
Real, sub-real,
super-real,
ou – como querem
alguns – surrealista?
Que dizer de um povo
cujo tempo
se dissolveu no
espaço e cujo espaço
não teve nunca tempo
para dissolver-se
em tempo?
*
Eterno era só Deus.
Os povos não.
E não as línguas e
as cidades. Mas
quem vive de
alheamento e sobrevive
não é que eterno se
ignora morto?
*
Salvador Correia
de Sá e Benevides
libertou o Brasil
dos holandeses
e Angola deles pois
que sem escravos
o mundo não se
açucarava bem.
Um dia regressou a
Portugal
à espera de ser
visto como herói
(que era). Gastou os
fundos dos calções,
as economias, as
plumas do chapéu,
e os borzeguins
comprados para a Corte,
nas antecâmaras
reais e realengas.
E um dia exausto ele
já de esperas e delongas,
a Majestade
recebeu-o enfim.
O que é que ele
queria? O que é que ele pedia?
Ah não pedia nada.
Só licença
de voltar ao Brasil.
Estava velho
e não havia
em Portugal espaço
pra morrer-se.
*
Espaço no Brasil,
pobre Correia!
Só reduzido a cinzas
centenárias
é que D. Pedro para
lá regressa
a pedido de várias
famílias.
(Legitimistas
riem-se nos túmulos,
e os liberais não
choram, que os não há).
*
Está aberta a
inscrição para poetas épicos
que celebrem em
oitavas a vitória
de Alcácer-Quibir.
(15 mil réis de
tença anual para o poeta
não nomeado por
velho e demasiado grande).
*
Mas este povo: o
povo: esse de séculos
em terra dura e
curta vida imerso?
Que sonha ou pensa?
Franças e Araganças?
Se lhe tiraram cama
em que sonhar!
Se lhe não deram
nunca o imaginar
mais que sardinha
assada sem esperanças!
Não sonha ou pensa,
apenas faz os filhos
que um dia houveram
sido o povo se –
um se e sempre se de
tantos séculos
e terra dura e curta
vida e gente
que está em cima e
há outros mais abaixo
danados só de não
estarem em cima
do mesmo povo, o tal
que todos amam
e lhes faz figas
quando voltam costas.
Lisboa, Agosto de
1971.
Nota explicativa do autor:
“São Silvestre e a Língua Portuguesa”, de
Dezembro de 1973, foi publicado, sem cortes da censura, no Diário Popular, de
Lisboa, em 3 de Janeiro do ano seguinte, a tempo de celebrar o ilustre santo e
papa (como do artigo se vê, ele era as três coisas, ou é). Neste conjunto, é
sobremodo evidente que a ordenação tinha de começar por este estudo
histórico-filológico, fundamental para a compreensão dos substratos mais
íntimos da cultura portuguesa. A ele segue-se “Uma Descoberta que Falhou Duas
Vezes aos Portugueses: Conta-se da Primeira”, escrito poucos dias antes de ser
publicado naquele mesmo “Diário Popular”, em 3° de Agosto de 1973. Naquele tempo,
quando, segundo o sentimento geral, as Descobertas Portuguesas estavam
oficialmente em moda, como agora, com igual infelicidade, não têm estado, o
artigo – histórico à fé da documentação referida –era muito a propósito. E
tratando ele de descobertas que não houve ainda que algumas tenha havido,
anteriores à Fundação do Jardim da Europa, claro que lhe cumpre vir logo depois
do que trata da «silvestre» origem dos nomes dos dias da semana em português, e
de outros milagres correlatos. Será perfeitamente consentâneo que, a seguir, se
trate de “Os Ossos dos Nossos Monarcas”, que, por lapso meu de cópia saiu sem
os “Nossos” no título, ao ser publicado no “Diário de Noticias”, de Lisboa, em
12 de Setembro de 1968, datado do Junho em que havia sido escrito e remetido
(maneira discreta de indicar ao leitor que lutas houvera, por parte de Natércia
Freire, que dirigia a página literária e me publicava no DN e a muitos outros
oposicionistas ora esquecidos de quanto a ela deveram por anos, para que o
artigo passasse...). É de notar que o artigo havia sido escrito e remetido
imediatamente antes da minha partida dos Estados Unidos para a Europa, e,
quando foi publicado, eu deambulava furiosamente pela Europa adiante, tendo
chegado a Portugal só em Dezembro desse ano, para ser vitima ou objecto de um
«equivoco de fronteira» que será, com a devida minúcia, contado noutra ocasião.
Há que apontar que o artigo nada tinha de piada gratuita à veneração pelos
monarcas lusos, muitos dos quais me merecem (Filipe II, inclusive) a maior
consideração. Muito pelo contrário. Todos os leitores do tempo o entenderam
perfeitamente: ele era uma sátira à solene transladação, para o Panteão dos
Braganças, em São Vicente de Fora, de D. Miguel I, a que então se procedera,
dando satisfação às tendências miguelistas e absolutistas mais que centenárias,
mas que foram e ainda são parte do «complexo ideológico» do fascismo português
(que, como é sabido, foi mais que nenhum outro um chorrilho de contradições
direitistas). D. Miguel não era mencionado nunca, nem era necessário levar mais
longe a provocação. Mas há que acrescentar que, quer a gente queira quer não
queira, ele reinou “de facto” (reconhecido diplomaticamente, antes de mais,
saborosa ironia, pelos Estados Unidos da América e pela Rússia) em Portugal,
era um Bragança com direito de asilo no jazigo de família, e, para sermos
completamente francos, correspondeu no seu tempo ao sentimento da maioria do
povo português, muito mais do que o seu vitorioso e liberal irmão D. Pedro,
ambos não só usados pelos políticos, mas exercendo físico e carismático
fascínio sobre os seus partidários. Todavia, o trazer-se D. Miguel não era na
verdade um acto de justiça prestado aos seus ossos: era uma ostensiva
manifestação de esbofetear o liberalismo que o vencera. Por isso o artigo foi
escrito (e quiçá, nas divisões que havia dentro de tudo, então como agora,
publicado). Curiosamente, e provavelmente por simples lapso da revisão, foi
cortado um parágrafo inteiramente inócuo ante o irónico veneno de tudo o mais:
aquele que aqui começa «E assim todos os soberanos de Portugal...» e termina
«velar pela memória e pelos ossos deles». A “nota final”, última volta do
parafuso irónico, era do original e saiu também naquele “D.N.”. Uma vez que
esta peça de sólida erudição histórica (uma das minhas frustrações, como será
de calcular, é que tanto historiador português de reconhecida idoneidade use
dela, sem me citar em nota ou bibliografia) seria necessariamente incluída
nesta colectânea, a ela teria de ser «anexado» um poema de 1971, escrito
durante uma estada em Portugal, durante a qual o então Presidente da República,
Tomás e almirante, convocou o povo a ouvir uma importantíssima comunicação pela
TV, e à hora da janta lá estava eu à espera de ouvir que o Prof. Caetano era
demitido, ou que ia haver eleições, ou que se assinava a paz em África, ou que
Portugal descobrira a bomba atómica. O país ardia de curiosidade. E ele,
solenemente, informou o dito povo de que este mesmo povo unanimemente aprovara
que, correspondendo à solicitação do Governo Brasileiro oficialmente
apresentada pelos canais competentes, Portugal ofereceria ao Brasil os ossos de
D. Pedro (o IV que os miguelistas nunca engoliram como rei em Portugal, e o I,
que os brasileiros não descansaram enquanto não o correram do Brasil para fora,
por muito que ele tivesse gritado aquela «Independência ou Morte» nos campos de
Ipiranga nos subúrbios de São Paulo, se não me engano nesta topografia
histórica que, no Brasil, só serve para retóricas como aquelas que a gente teve
de suportar por décadas em Portugal, e que, diga-se de passagem, me pasmaram
quando cheguei ao Brasil em 1959, por muito que de Brasil já soubesse e até lá
tivesse estado em rapaz, uma vez que eu pensava que tal patrioteirismo barato
era coisa de fascistas e afinal não era, e vejo melhor agora, pelo mundo, que
não é, mas arma de todos os grupos dirigentes no seu oportunismo de manobrar as
massas). O discurso, acima referido, gaguejado na TV, era de um incrível
ridículo, e enquadrava-se, efeito que me causou, na indignação que eu sentia
ante o fim da festa (e que era afinal, sem que muita gente soubesse, preparação
do festival seguinte), que nojentamente era o exibicionismo de novo-riquismo da
sociedade portuguesa. O que tudo deu os violentos poemas que foram publicados
numa secção do meu livro “Exorcismos”, 1972, devo dizer que com escândalo de
gente de todas as cores, que achou que eu ofendia neles a pátria (neles, quero
dizer os poemas e essa gente delicada ou comprometida). Ele, Presidente Tomás,
ele mesmo, levaria ao Brasil os ossos, e creio que efectivamente levou. O dar
ao Brasil os ossos do seu primeiro Imperador e fundador como nação independente
“não era só” uma homenagem ao Brasil: era, sim, o epilogozinho torpe da entrada
dos ossos de D. Miguel. Entrava o “legitimo”, e era posto a andar o “traidor
brasileiro”. No poema põe-se em contraste como, no século XVII, Salvador
Correia de Sá dissera aquela tremenda frase de amargura a D. João IV ou lá quem
foi que o ouviu nos Paços da Ribeira, quando afinal ter-se nascido português e
viver no Brasil passou a ser um bico de obra, de que não sofrem tanto as outras
raças migratórias, ainda que no primeiro impacto, os italianos de São Paulo
soubessem que tinham de descer do passeio para a rua (a menos que desejassem arriscar
facada dos capangas), quando nele passavam os grandes senhores paulistas e
paulistanos (todos de quilométricos apelidos portugueses). Ainda quanto a ossos
no Panteão de São Vicente, consta-me que a recentemente falecida Madame
Lupescu, longamente amante mundial do Rei Carol da Roménia, ele insigne magnate
dos pitróis toda a vida, e ela dele viúva morganática, acaba de dar entrada no
dito Panteão brigantino de São Vicente. A que titulo? É isto uma
“revolucionária” manifestação de desrespeito pela intimidade familiar dos
Braganças, ou homenagem às companhias do petróleo, ou as duas coisas juntas?
Porque homenagem à Roménia como país amigo por certo que não é. Fora com a
Madama, e haja respeito por uma série de gente que, a comparar com a cabronada
que, em tempo deles, governou as Europas, São modelos de inteligência e de
virtude, em que pese à propaganda republicana de antes e depois de 1910.
Jorge de Sena, “Reino da estupidez-II”. Moraes Editores, 1978

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