UMA COLÓNIA SUPERPOVOADA
Não saía fumo das chaminés. Em 1850, depois de
quatro anos de fome e de pragas, os campos da Irlanda despovoaram-se, e pouco a
pouco as casas desabitadas ruíram. Os habitantes tinham partido para o
cemitério ou para os portos da América do Norte.
A terra nem batatas dava. Só a produção de
loucos crescia. O manicómio de Dublin, pago por Jonathan Swift, tinha noventa
internos quando foi inaugurado. Um século depois, havia mais de três mil.
Durante a fome, Londres enviou alguma ajuda de
emergência, mas a caridade acabou passados alguns meses. O império decidiu não
continuar a socorrer esta colónia incómoda. Conforme explicou o
primeiro-ministro, lorde Russell, o ingrato povo irlandês pagava esta
generosidade com rebeliões e difamações e isso caía muito mal à opinião
pública.
E Charles Trevelyan, alto funcionário encarregado da crise irlandesa, atribuiu a fome à Divina Providência. A Irlanda tinha a mais alta densidade demográfica de toda a Europa, e uma vez que o excesso de população não podia ser evitado pelos homens, Deus solucionava-o em toda a sua sabedoria, de forma imprevista, inesperada, mas com grande eficácia.
Imagem em lavrapalavra
DESASTRES NATURAIS
Um deserto vazio de passos e de vozes, apenas
pó fustigado pelo vento.
Muitos chineses se enforcam, antes que a fome
os leve a matar ou antes que a fome os mate.
Os triunfantes mercadores da guerra do ópio
fundam em Londres o Fundo de Socorro para a Fome na China.
Esta instituição de caridade promete
evangelizar o país pagão por via digestiva: do Céu choverão alimentos, enviados
por Jesus.
*
OUTROS DESASTRES NATURAIS
Em 1879, depois de três Invernos sem chuva, há
menos nove milhões de indianos.
A culpa é da natureza:
– São desastres naturais –
dizem os que sabem.
Mas na Índia, nesses anos atrozes, o mercado
castiga mais do que a seca.
Como lei do mercado, a liberdade oprime. A
liberdade de comércio, que obriga a vender, proíbe comer.
A Índia é uma plantação colonial, não uma
misericórdia. O mercado manda. Sábia é a sua mão invisível, que faz e desfaz; e
ninguém tem razão para corrigi-la.
O governo britânico limita-se a ajudar a
morrer uns quantos moribundos, nos seus campos de trabalho chamados Campos de
Socorro, e a exigir os impostos que os camponeses não conseguem pagar. Os
camponeses perdem as suas terras, que se vendem ao desbarato; e ao desbarato se
vendem os braços que nelas trabalham, enquanto a escassez eleva até às nuvens o
preço dos grãos que os empresários açambarcam.
Os exportadores vendem mais do que nunca.
Montanhas de trigo e de arroz são despejadas nos portos de Londres e de
Liverpool. A Índia, colónia esfomeada, não come, mas dá de comer. Os britânicos
comem a fome dos indianos.
É muito cotada no mercado esta mercadoria
chamada fome, que multiplica as oportunidades de investimento, reduz os custos
de produção e aumenta os preços dos produtos.
*
O PAI DA CRUZ VERMELHA
A Cruz Vermelha nasceu em Genebra, fruto da
iniciativa de alguns banqueiros suíços, para socorrer os feridos abandonados
pelas guerras nos campos de batalha.
Gustave Moynier, o primeiro presidente,
encabeçou o Comité Internacional durante mais de quarenta anos. Ele explicava a
Cruz Vermelha, instituição inspirada na moral evangélica era bem recebida nos
países civilizados, mas deparava com muita ingratidão nos países colonizados.
— A compaixão —
escreveu — é desconhecida por aquelas tribos selvagens, que praticam o
canibalismo. Este sentimento é-lhes tão estranho que as suas línguas não têm
nenhuma palavra para expressar essa ideia.
*
CHURCHILL
Todo-poderosa era a influência dos herdeiros
de lorde Marlborough, conhecido como Mambru; graças à sua família, o jovem
Winston Churchill conseguiu entrar num dos batalhões de lanceiros que iam
combater no Sudão.
Ele foi soldado e cronista da batalha de
Omdurman, em 1898, nos arredores de Cartum, nas margens do rio Nilo.
A coroa britânica estava a criar um corredor
de colónias que atravessasse África do Cairo, a norte, a Cidade do Cabo, no
extremo sul. A conquista do Sudão era fundamental para esse projecto de
expansão imperial, que Londres explicava dizendo:
— Estamos a civilizar África através do
comércio,
em vez de confessar:
— Estamos a comercializar África através da
civilização.
Esta missão redentora abria caminho a ferro e
fogo. Como os raquíticos cérebros africanos não conseguiam compreendê-la,
ninguém se dava ao trabalho de lhes pedir opinião.
Nos bombardeamentos da cidade de Omdurman,
reconheceu Churchill, morreu um grande número de infelizes
não-combatentes, vítimas do que passou a chamar-se, um século depois, danos
colaterais. Mas, finalmente e segundo as suas palavras, as
armas imperiais obtiveram o triunfo mais eloquente jamais alcançado pelas armas
da ciência contra as armas da barbárie, a derrota do exército selvagem mais
poderoso e mais bem armado alguma vez amotinado contra um moderno poder
europeu.
De acordo com os dados oficiais dos
vencedores, este foi o resultado da batalha de Omdurman:
nas tropas civilizadas, cerca de dois por
cento de baixas;
nas tropas selvagens, cerca de noventa por
cento de baixas.
(Eduardo Galeano, “Espelhos – Uma História
Quase Universal. Antígona, 2018.)


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