Guerra Irão-Israel: A Posição e a Ambivalência da Rússia. “Moldada pelo Pragmatismo e Interesses Limitados”
Por Barış Hasan
A tensão Irão-Israel, um dos elementos mais
sensíveis do equilíbrio de poder no Médio Oriente, transformou-se numa guerra
quente a 13 de Junho.
Esta guerra tem um impacto que vai para
além dos intervenientes regionais e, neste momento, a posição
ambivalente da Rússia é importante em termos de equilíbrios geopolíticos
regionais e globais. Embora a abordagem de Moscovo à guerra Irão-Israel seja
apresentada ao público como uma política de equilíbrio, baseia-se, na verdade,
no alinhamento dos seus interesses estratégicos com a posição dos EUA (governo
Trump).
Esta postura, apresentada como uma política
russa equilibrada e cautelosa, reflecte a incapacidade da Rússia para tomar
partido abertamente. Esta política é consistente com a abordagem geral da
política externa russa, que há muito perdeu o reflexo de agir como uma grande
potência. A Rússia posiciona-se como uma potência de equilíbrio, em vez de uma
grande potência, e procura trabalhar com todos os intervenientes no Médio
Oriente. Embora Moscovo tenha assinado um acordo de cooperação estratégica com
o Irão, continua também a sua coordenação militar com Israel. Esta postura é o
resultado dos esforços para proteger interesses estratégicos mais restritos de
ambos os lados, sob o pretexto da neutralidade.
Os dias em que a Rússia e o Irão se uniam em
bases comuns para apoiar o regime de Bashar al-Assad na Síria
já passaram. No entanto, as operações de Israel contra a presença militar
iraniana na Síria e o genocídio em Gaza criaram uma equação complexa para a
Rússia. Embora tenha procurado proteger os seus interesses na Síria, a Rússia
também manteve a sua coordenação militar com Israel e não conseguiu assumir uma
posição moral e política contra o genocídio em Gaza.
A Rússia considera a guerra Irão-Israel uma
crise que irá moldar a posição dos EUA na região, criando outra estreita janela
de oportunidade. O abandono da Síria e do Irão pela Rússia em troca de ganhos
na Ucrânia é um processo de negociação barato. Por outro lado, embora uma
possível crise energética e o aumento dos preços do petróleo proporcionem à
Rússia vantagens económicas a curto prazo, a contradição na política russa
realça a natureza tacanha desta política.
O Irão tem sido considerado um aliado da
Rússia no bloco anti-americano, e as estratégias económicas, energéticas e de
defesa desenvolvidas em conjunto pelos dois países em resposta às sanções
impostas pelo Ocidente foram particularmente notáveis. No entanto, o início da
guerra Irão-Israel revelou as projecções russas nos bastidores. Parece que, ao
mesmo tempo que procurava a cooperação estratégica com o Irão, procurava também
uma estratégia para limitar a influência iraniana na região. Claramente, na perspectiva
russa, a expansão da esfera de influência do Irão no Médio Oriente e até a sua
ascensão como potência nuclear eram vistas como uma ameaça à própria influência
russa na região. Por conseguinte, o apoio russo ao Irão sempre foi superficial,
dentro de certos limites e movido por interesses mesquinhos. A guerra
Irão-Israel levantou o véu sobre os cálculos russos.
De salientar que, embora a Rússia tenha
assinado acordos de parceria estratégica com o Irão, sempre agiu de forma
pragmática nas suas relações com Israel. A cooperação entre a Rússia e Israel
sempre foi forte nas áreas do comércio, tecnologia e energia, e as operações
militares israelitas no espaço aéreo sírio foram coordenadas com a Rússia. Por
conseguinte, não se esperava que a Rússia se distanciasse de Israel e alinhasse
abertamente com o Irão. Isto porque, com a janela estratégica cada vez mais
estreita, a Rússia não considera racional arrefecer ou romper as relações com
Israel.
Como resultado, a posição da Rússia na guerra
Irão-Israel é moldada mais pelo pragmatismo, por interesses mesquinhos e pela
procura de equilíbrio regional como actor que perdeu o seu estatuto de potência
global do que pelo desejo de apoiar o seu parceiro. Enquanto Moscovo mantém a
sua relação estratégica com o Irão na retórica, está a reforçar as suas
relações diplomáticas e focadas na segurança com Israel no terreno. Não é
difícil adivinhar que esta situação se desenvolveu no seio de uma relação mútua
de dar e receber. A posição da Rússia na guerra Irão-Israel, que pode ser
definida como "equilibrante", significa essencialmente abandonar os
seus aliados em troca de ganhos que alcançará na Ucrânia em acordo com a
administração Trump. Um país que procura políticas tão harmoniosas com os EUA
após a reeleição de Trump está agora a perder a sua capacidade de equilibrar os
EUA, o que foi valioso para a Türkiye no passado.
Este artigo foi publicado originalmente
no ATASAM.
A imagem em destaque é da ATASAM

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