Poderá um fórum bilionário salvar um mundo
que eles próprios estão a pôr em perigo?
Por Martín Alvarez
Todo mês de janeiro, um cantão da Suíça se
torna o epicentro simbólico do poder global. O Fórum de Davos reúne
presidentes, banqueiros e grandes empresários para debater a direção do
planeta. Dizem que se preocupam com as alterações climáticas, a pobreza e a
equidade. Mas as vozes ali ouvidas não representam o mundo real, mas sim
aqueles que o administram de cima. Este relatório explora as origens, objetivos
e contradições de um evento que promete soluções ao mesmo tempo que defende o
mesmo sistema que gera os problemas.
Se alguém quisesse
imaginar um lugar onde as grandes potências do planeta olham nos olhos
umas das outras, fecham negócios sem assinar nada e decida o curso do
mundo como quem escolhe vinho para jantar, não teria que recorrer à
ficção. Esse lugar existe e chama-se Davos.
À primeira
vista, Davos é apenas uma pequena cidade suíça, com montanhas
cobertas de neve, ruas tranquilas e ar limpo do Alpes. Mas cada mês
de janeiro, esse paraíso alpino se torna uma espécie de Olimpo
moderno onde grandes empresários, chefes de estado, banqueiros, tecnocratas e
celebridades que se tornaram ativistas se encontram. Um seleto clube, blindado
por helicópteros e protocolos, no qual não há espaço para as maiorias que
habitam o mundo que esses homens —e algumas mulheres — projetam.
O Fórum
Econômico Mundial (WEF) nasceu em 1971, criado por Klaus
Schwab, um economista alemão com boas conexões e melhores intuições. O que
começou como uma reunião europeia de negócios transformou-se ao longo
dos anos em uma verdadeira cimeira global do poder. Desde então, o
evento ganhou prestígio, influência e... poder, muito poder.
Porque Davos não é apenas um fórum de ideias, é uma vitrine
onde o consenso é exibido, os privilégios são negociados e os futuros são
preparados.
UM CLUBE “PREOCUPADO” PARA O MUNDO
Os objectivos proclamados pelo
Fórum parecem, evidentemente, muito nobres. “Melhorar o estado do
mundo” é o slogan deles. Afirmam que procuram soluções para os principais
problemas globais: mudanças climáticas, desigualdade, guerras,
pandemias.
Também dizem que se
preocupam fome, pela paz, pela inclusão. Mas só olha quem
paga, quem frequenta e quem toma a palavra, para
começar desconfiança.
Em Davos não se
decide diretamente uma guerra nem se elabora uma lei. Mas constrói-se uma
narrativa que molda como devemos entender o mundo. É onde é
redefinido, por exemplo, o que significa “progress”, “innovation” ou
“development”. Não é por acaso que os principais atores do fórum são
os grandes CEOs de empresas multinacionais, gestores de bancos de
investimento, organizações internacionais e governos das potências
económicas.
Claro algum
ganhador do Prêmio Nobel entra furtivamente, algum activista
cuidadosamente escolhido ou algum influenciador com tom
rebelde e sorriso fotogênico. Mas cumprem, mais do que tudo, uma função
decorativa. No coração do fórum, as vozes que realmente importam são os
que movimentam os fluxos de capital.
DAVOS COMO CENÁRIO DE DESIGUALDADE
ORDENADA
Davos não é
a invenção maligna. É, simplesmente, um reflexo polido de como
funciona o mundo de hoje: alguns poucos decidem, muitos executam, a
maioria obedece. Mas o que chama a atenção não é apenas quem está em
Davos, mas quem não está. Os trabalhadores que fabricam os aparelhos
que aí se apresentam como avanços tecnológicos não estão. Eles não
são populações deslocadas por guerras onde a geopolítica está em jogo. Não
estão lá comunidades empobrecidas por tratados que são elogiados como
progresso.
Em teoria, o fórum promove a cooperação global. Na
prática, fortalece o consenso dos poderosos: que o mundo só pode ser
governado a partir da lógica do mercado. Que a competitividade é o único
caminho. Que o crescimento econômico — embora beneficie alguns — deve
continuar a ser o farol da humanidade.
E, no entanto, o
próprio Fórum de Davos parece consciente das fissuras no sistema
que suporta. Há alguns anos, seu discurso incorpora palavras
como “inclusão”, “equity”, “transição green”. Fala-se até
de “capitalismo de partes interessadas”, como se uma camada
de verniz ético poderia esconder desigualdades estruturais. Mas essas
palavras ressoam a oco quando aqueles que as pronunciam são os
mesmos que beneficiam da precariedade, do extrativismo e da evasão fiscal.
A EDIÇÃO 2026: MAIS TENSÃO, MAIS RETÓRICA
A edição do Fórum acabou de ser
realizada em janeiro de 2026 e não foi excepção. Mesmo que o mundo
passe uma das maiores crises energéticas das últimas décadas e
uma onda inflacionária que atinge especialmente o Sul Global, o discurso
dominante em Davos voltou a insistir na necessidade de “balance” finanças
públicas, “estimular a inovação privada” e “reconstruir a confiança
do mercado”.
Ou seja, apresentaram-se
como “soluções globais” as mesmas receitas
antigas: cortes, privatizações, flexibilidade trabalhista. Tudo
isso disfarçado de sustentabilidade e sob a promessa de uma “quarta revolução
industrial”.
Figuras como Christine
Lagarde, Elon Musk, o primeiro-ministro britânico e o CEO
da BlackRock foram protagonistas de painéis onde a palavra “solidariedade” flutuou,
estranha e paradoxalmente, entre discursos de investimento em inteligência
artificial, gestão riscos e defesa dos direitos de propriedade
intelectual.
Enquanto isso, fora dos
muros do Congresso, uma nova geração de manifestantes — jovens
trabalhadores, ambientalistas, movimentos camponeses — gritou o que ninguém lá
dentro queria ouvir: “suas crises, nossas vidas”.
CAPITALISMO EM SEU LABORATÓRIO DE ELITE
Davos não é um
parlamento, mas é mais influente do que muitos deles. Ele não tem exércitos
mas organiza o mundo de forma mais eficaz do que a maioria dos
governos. Também não é uma empresa embora atua como uma grande
empresa de consultoria global que atende o capital mais poderoso. É um
laboratório de ideias... desde que essas ideias não questionem os fundamentos
do sistema.
Conceitos como os
que são testados lá "resiliência", "sustentabilidade", "transformação
digital", "investimento social", "capitalismo
inclusivo". Mas o curioso é que cada uma dessas palavras, quando sai do
microclima alpino de Davos, já foi esvaziada do seu
conteúdo mais radical. Tornam-se rótulos agradáveis que adornam
a lógica de acumulação, desapropriação e controle e que operam há
décadas.
Por exemplo, falou-se
em transição ecológica. Mas foi omitido que muitas das empresas ali
presentes — grandes empresas de petróleo, tecnologia, mineração — são os
principais responsáveis pelo colapso ambiental. Falou-se de justiça
fiscal, mas não foi seriamente discutida a existência de paraísos
fiscais, nem o poder das multinacionais para evitar impostos com
total impunidade. Falou-se de paz enquanto representantes de
companhias de armas percorreram seus cartões de convite pelos corredores.
“STAKEHOLDER CAPITALISM”: UMA MÁSCARA
PARA A DESIGUALDADE
Um dos lemas mais
repetidos destes anos foi o de “capitalismo de partes
interessadas” (capitalismo stakeholder). Ou seja, um modelo que, segundo
Schwab e companhia, busca substituir o capitalismo acionista egoísta por outro
mais consciente das comunidades, dos trabalhadores e do meio ambiente.
Mas chega cavar um
pouco para ver que esta proposta não representa uma mudança na lógica
mas uma mudança de discurso. Porque não é questionado o poder das
grandes corporações, nem a propriedade concentrada nem a subordinação do
trabalho ao capital. O que se propõe é uma espécie de gestão amável da
desigualdade, um capitalismo disfarçado de responsabilidade social.
Exemplo? Black
Rock, o mega fundo de investimento que administra mais
dinheiro do que o PIB de muitos países juntos, defende esta “new” versão
do capitalismo... enquanto continua a investir em indústrias poluentes,
empresas com histórico de violações trabalhistas e projetos extrativistas que
expulsam comunidades inteiras. Isso é uma transformação do sistema ou
apenas uma nova embalagem?
A VOZ AUSENTE: AQUELES QUE NÃO TÊM LUGAR À
MESA
O que nunca é dito
em Davos é a questão que boa parte do sofrimento global é
consequência direta da ordem que ali se celebra. Políticas de ajustamento
estrutural, reformas laborais regressivas, comercialização dos direitos
sociais, acordos comerciais desiguais, eles não são erros do
sistema: são a sua essência. E em Davos se eles
atualizam, eles se cobrem, se legitimam.
Os trabalhadores
precários do Sul Global, os povos deslocados por megaprojetos, as
mulheres que sustentam a vida no meio do abandono institucional, a
juventude sem futuro que enchem as ruas de protesto... eles não
têm assento na mesa de Davos. E se tiverem, é simbólico. As decisões que os
afetam são levadas sem eles.
E, no entanto, são
estes mesmos sectores que, organizados, têm sido protagonistas da resistência
mais poderosa dos últimos tempos. Dos coletes amarelos em França, às lutas pela
terra em América Latina ou movimentos anti-racistas que desafiam a
ordem a partir de baixo. São eles que estão dizendo que outro mundo não é
apenas possível, mas urgente.
DAVOS 2026: THE
WORLD BURSTS, O FÓRUM SIMULA
O Edição 2026 terminou
com uma imagem que resume bem o momento atual: enquanto um jantar de gala
com champanhe e foie gras estava sendo realizado, milhares de pessoas estavam
se manifestando fora do local sob uma nevasca grossa, com sinais que
diziam “Não existe planeta B”, “Suas soluções são nosso problema”,
“Também queremos decidir”.
E o mundo parece ter atingido
um ponto de viragem. As crises multiplicam-se: clima, economia, energia,
alimentação, migração. Mas em vez de repensar o modelo, Davos oferece
mais do mesmo. Tecnologia, inovação, eficiência, controle. O futuro, segundo
Davos é um futuro gerido por algoritmos, monitorizados por drones e
ordenados pelos mercados.
Fontes:
- Documento anexo: Fórum Davos. Origem,
Objetivos e Críticas - Google Docs.pdf
- Site oficial do Fórum Econômico Mundial (https://www.weforum.org/)
- Notícias recentes do WEF 2026 consultadas
em:
- Al
Jazeera – Davos 2026: Líderes globais buscam 'resiliência'
- The Guardian – Davos 2026: Mundo em crise, elites falam em silêncio nevado
- Democracia agora – Os manifestantes de Davos dizem 'Não somos partes
interessadas'
Imagem: Fórum Econômico de Davos 2026 - Paresh Nath

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