Por Carlos Serna
Alerta: quando uma ilha inteira se torna
uma mercadoria. O que revela essa ofensiva sobre o funcionamento do capitalismo
atual?
A Gronelândia deixou de ser uma terra remota e
tornou-se o epicentro de um conflito global. O que está em jogo não é apenas a
sua soberania, mas algo mais profundo: a sua transformação numa mercadoria.
Neste processo, o capital transforma o desastre climático em negócio e prepara
novos cenários de conquista. Carlos Serna nos explica neste artigo.
No extremo norte do planeta, Groenlândia emergir
como uma ilha coberta de gelo e, até recentemente ignorados pelos
grandes centros do poder mundial. Mas o que até ontem era “wasteland” hoje
tornou-se palco de manobras diplomáticas, ameaças sem véus e discursos
inflamados. O que aconteceu? Porquê Gronelândia?
A resposta não está
num mapa, mas na lógica que domina este mundo: a do capital. Em
tempos de crise, qualquer pedaço do planeta pode ser transformado em objeto de
disputa se oferecer recursos, posição estratégica ou simplesmente a
possibilidade de gerar benefícios. E a Groenlândia, com sua camada de
gelo desmoronando, atende a todas essas condições.
QUANDO UM TERRITÓRIO SE TORNA UMA MERCADORIA
Uma das características mais
marcantes do capitalismo é a sua capacidade de transforme tudo em
mercadoria: o água, o conhecimento, o órgãos, o natureza...
e agora também Groenlândia. Toda a ilha é percebida nos centros de poder
como mais um produto que pode ser valorizado, avaliado, negociado e, se
necessário, comprado ou conquistado.
Nos discursos de Trump e
seus aliados, Groenlândia não é uma comunidade viva, nem um
território com história, nem a ecossistema frágil. É um oportunidade
investimento, a “ativo estratégico” o que EU faria ao OTAN “mais
formidável” se estiver integrado ao território dos EUA. A lógica é clara:
não se trata de viver com os groenlandeses, mas de possuir a ilha, como
alguém que adquire uma mina ou a terreno para venda.
Este processo de conversão em
mercadoria não é metafórico. Significa, literalmente, reduzir um
território habitado ao seu valor de troca, ao que pode oferecer em termos de rentabilidade.
É o mesmo mecanismo que transforma uma selva em hectares de soja, ou uma
montanha em um poço de lítio.
CAPITAL BUSCA NOVAS FRONTEIRAS
Mudanças climáticas, longe
de ser um aviso, tornou-se uma oportunidade de negócio pelas grandes
potências económicas. O derretimento do Ártico abra novas rotas
marítimas e libere acesso a minerais estratégicos, alguns deles essenciais para
a tecnologia “green” isso promete salvar o planeta e ao mesmo tempo
continuar a alimentar o mercado.
Groenlândia, nesse cenário,
aparece como um território a ser conquistado por meios económicos,
diplomáticos ou militares, como já foi sugerido desde então Washington. As
palavras do congressista Ógulos, que definiu a EUA como “o
predador dominante do hemisfério”, resume bem a atitude: há pilhagem,
e há quem esteja disposto a tomá-lo.
Mas o importante não é
apenas o que é dito, mas o que está escondido. Porque enquanto fala
sobre soberania, segurança ou desenvolvimento, o que está realmente em
jogo é o comercialização absoluta de um espaço habitacional. E o mais
perverso: que tudo isto acontece precisamente porque A Gronelândia está a
derreter. A catástrofe, então, também se torna oportunidade.
ALIENAÇÃO COMO MECANISMO CENTRAL
De uma perspectiva crítica, o
que estamos vendo é um forma extrema de alienação, isto é, a
separação entre as pessoas e as condições reais da sua existência. Groenlândia, habitada
por povos nativos com séculos de história, está excluído do debate que
define o seu destino. Seu território é simbolicamente despojado de toda
identidade, e reduzido a um tabela excel onde são medidos reservas
de urânio, cobalto e petróleo.
O fenômeno lembra o que já
aconteceu nos séculos anteriores, quando África e América Latina foram parcelado
e leiloado pelas potências imperiais. Os discursos e formatos mudam, mas
não a lógica: trata-se sempre de apropriar-se do que pertence aos outros e
transformá-lo em fonte de acumulação.
O ESTADO COMO AGENTE DE ACUMULAÇÃO
Nesse cenário, o Estado não atua
como mediador ou garantidor de direitos coletivos. Agir como gestor de
juros de capital, tipo máquinas ao serviço das classes dominantes. Isto é
demonstrado pela iniciativa legislativa de alguns setores republicanos financiar
uma operação militar na Gronelândia, se necessário. A lógica é
clara: se não puder ser comprado, será tomado à força.
Isso é o face moderna do
imperialismo. Um imperialismo que já não precisa de colónias oficiais, mas
continua a operar através de tratados, investimentos, presença militar e
pressão política, sempre com o objetivo de ampliar os espaços de
valorização do capital.
UM AVISO PARA O FUTURO
Groenlândia é
hoje um termômetro das tensões que se acumulam em um sistema que não pode
mais se expandir sem colidir com seus próprios limites. Onde costumava
haver gelo, agora existe um mercado. Onde havia cidades, agora existem recursos.
O que está em jogo não é apenas o destino de uma ilha, mas a capacidade do
capital de se reinventar no meio do desastre que ele próprio gerou.
E essa reinvenção tem um
preço: a perda de tudo o que não pode ser convertido em mercadoria. O vida,
o cultura, o clima, o direitos... tornar-se secundário a uma
lógica que só reconhece o valor do que pode ser vendido.
FONTES CONSULTADAS:
‘Somos o Predador Dominante,’ Diz Legislador
Republicano – Sonhos Comuns
Trump vê “inaceitável” qualquer opção que não
passe pela anexação – El País
‘Devemos parar Him’: projeto de lei galego
proibiria o financiamento – Sonhos comuns
Por que a Groenlândia é importante para um
mundo em aquecimento – The New York Times

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