Karl Marx e Friedrich Engels
Anda um espectro pela Europa — o espectro do Comunismo. Todos os poderes da velha Europa se aliaram para uma santa caçada a este espectro, o papa e o tsar, Metternich e Guizot, radicais franceses e polícias alemães.
Onde está o partido de oposição que não
tivesse sido vilipendiado pelos seus adversários no governo como comunista,
onde está o partido de oposição que não tivesse arremessado de volta, tanto
contra os oposicionistas mais progressistas como contra os seus adversários
reaccionários, a recriminação estigmatizante do comunismo?
Deste facto concluem-se duas coisas.
O comunismo já é reconhecido por todos os
poderes europeus como um poder.
Já é tempo de os comunistas exporem
abertamente perante o mundo inteiro o seu modo de ver, os seus objectivos, as
suas tendências, e de contraporem à lenda * do espectro do comunismo um
Manifesto do próprio partido.
* Na edição de 1848: lendas. ( N.
Ed. )
Com este objectivo reuniram-se em Londres
comunistas das mais diversas nacionalidades e delinearam o Manifesto seguinte,
que é publicado em inglês, francês, alemão, italiano, flamengo e dinamarquês *
* Sobre a publicação do Manifesto em
diferentes traduções ver as indicações constantes dos Prefácios e as
respectivas notas. ( N. Ed. )
I. Burgueses e proletários *
A história de toda a sociedade até aqui ** é a
história de lutas de classes.
[Homem] livre e escravo, patrício e plebeu,
barão e servo [ Leibeigener ], burgueses de corporação [ Zunftbürger ]
*** e oficial, em suma, opressores e oprimidos, estiveram em constante oposição
uns aos outros, travaram uma luta ininterrupta, ora oculta ora aberta, uma luta
que de cada vez acabou por uma reconfiguração revolucionária de toda a
sociedade ou pelo declínio comum das classes em luta.
* Por burguesia entende-se a classe dos
Capitalistas modernos, proprietários dos meios de produção social e
empregadores de trabalho assalariado. Por proletariado, a classe dos
trabalhadores assalariados modernos, os quais, não tendo meios próprios de produção,
estão reduzidos a vender a sua força de trabalho [ labour-power ]
para poderem viver. ( Nota de Engels à edição inglesa de 1888 .)
** Isto é, toda a história escrita .
Em 1847, a pré-história da sociedade, a organização social existente antes da
história registada, era praticamente desconhecida. Desde então, Haxthausen
descobriu a propriedade comum da terra na Rússia, Maurer provou que ela é o
fundamento social de que partiram todas as raças Teutónicas da história, e a
pouco e pouco verificou-se que as comunidades aldeãs são ou foram a forma
primitiva de sociedade em toda a parte, da Índia à Irlanda. A organização
interna desta primitiva sociedade Comunista foi posta a nu, na sua forma
típica, pela descoberta culminante feita por Morgan da verdadeira natureza da
gens e da sua relação com a tribo. Com a dissolução destas comunidades primevas
a sociedade começa a diferenciar-se em classes separadas e finalmente antagónicas.
Tentei reconstituir este processo de dissolução em Der Ursprung der
Familie, des Privateigenthums und des Staats, zweite Auflage ,
Stuttgart 1886 . [ A Origem da Família, da Propriedade
Privada e do Estado , segunda edição, Estugarda, 1886. — Ver MEW ,
vol. 21, pp. 25-173; cf. OE , t. III, 1985, pp.
213-374.] (Nota de Engels à edição inglesa de 1888 .) ( 37 )
*** Guild-master : membro
pleno de uma corporação, mestre dentro de uma corporação, e não o seu
presidente [que em alemão seria, por exemplo, Zunftherr .
— N. Ed.]. (Nota de Engels à edição inglesa de 1888 .)
Nas anteriores épocas da história encontramos
quase por toda a parte uma articulação completa da sociedade em diversos
estados [ou ordens sociais — Stände ], uma múltipla gradação
das posições sociais. Na Roma antiga temos patrícios, cavaleiros, plebeus,
escravos; na Idade Média: senhores feudais, vassalos, burgueses de corporação,
oficiais, servos, e ainda por cima, quase em cada uma destas classes, de novo
gradações particulares.
A moderna sociedade burguesa, saída do
declínio da sociedade feudal, não aboliu as oposições de classes. Apenas pôs
novas classes, novas condições de opressão, novas configurações de luta, no
lugar das antigas.
A nossa época, a época da burguesia,
distingue-se, contudo, por ter simplificado as oposições de classes. A
sociedade toda cinde-se, cada vez mais, em dois grandes campos inimigos, em
duas grandes classes que directamente se enfrentam: burguesia e proletariado.
Dos servos da Idade Média saíram os Pfahlbürger (38)
das primeiras cidades; desta Pfahlbürgerschaft desenvolveram-se
os primeiros elementos da burguesia [ Bourgeoisie ].
O descobrimento da América, a circum-navegação
de África, criaram um novo terreno para a burguesia ascendente. O mercado das
Índias orientais e da China, a colonização da América, o intercâmbio [ Austausch ]
com as colónias, a multiplicação dos meios de troca e das mercadorias em geral
deram ao comércio, à navegação, à indústria, um surto nunca até então
conhecido, e, com ele, um rápido desenvolvimento ao elemento revolucionário na
sociedade feudal em desmoronamento.
O modo de funcionamento até aí feudal ou
corporativo da indústria já não chegava para a procura que crescia com novos *
mercados. Substituiu-a a manufactura. Os mestres de corporação foram
desalojados pelo estado médio [ Mittelstand ] industrial; a
divisão do trabalho entre as diversas corporações [ Korporationen ]
desapareceu ante a divisão do trabalho na própria oficina singular.
* Nas edições de 1848, 1872 e 1883: os novos.
( N. Ed. )
Mas os mercados continuavam a crescer, a
procura continuava a subir. Também a manufactura já não chegava mais. Então o
vapor e a maquinaria revolucionaram a produção industrial. Para o lugar da
manufactura entrou a grande indústria moderna; para o lugar do estado médio
industrial entraram os milionários industriais, os chefes de exércitos
industriais inteiros, os burgueses modernos.
A grande indústria estabeleceu o mercado
mundial que o descobrimento da América preparara. O mercado mundial deu ao
comércio, à navegação, às comunicações por terra, um desenvolvimento
imensurável. Este, por sua vez, reagiu sobre a extensão da indústria, e na
mesma medida em que a indústria, o comércio, a navegação, os caminhos-de-ferro
se estenderam, desenvolveu-se a burguesia, multiplicou os seus capitais,
empurrou todas as classes transmitidas da Idade Média para segundo plano.
Vemos, pois, como a burguesia moderna é ela
própria o produto de um longo curso de desenvolvimento, de uma série de
revolucionamentos no modo de produção e de intercâmbio [ Verkehr ].
Cada um destes estádios de desenvolvimento da
burguesia foi acompanhado de um correspondente progresso político * . Estado
[ou ordem social — Stand ] oprimido sob a dominação dos
senhores feudais, associação * armada e auto-administrada na comuna *** , aqui
cidade-república independente **** , além terceiro-estado na monarquia sujeito
a impostos ***** , depois ao tempo da manufactura contrapeso contra a nobreza
na monarquia de estados [ou ordens sociais — ständisch ] ou na
absoluta ****** , base principal das grandes monarquias em geral — ela
conquistou por fim, desde o estabelecimento da grande indústria e do mercado
mundial, a dominação política exclusiva no moderno Estado representativo. O
moderno poder de Estado é apenas uma comissão que administra os negócios
comunitários de toda a classe burguesa.
* Na edição de 1888 acrescenta-se: desta
classe. ( N. da Ed. .)
** Nas edições de 1848 a 1872: as associações.
( N. da Ed. .)
*** «Comuna» era o nome tomado em França pelas
cidades nascentes mesmo antes de terem conquistado dos seus senhores e amos
feudais a auto-administração local e direitos políticos como «Terceiro Estado».
De um modo geral, para o desenvolvimento económico da burguesia, é a Inglaterra
tomada aqui como o pais típico; para o seu desenvolvimento político, a França.
( Nota de Engels à edição inglesa de 1888 .)
Assim chamavam os habitantes das cidades da
Itália e da França às suas comunidades urbanas, depois de terem comprado ou
conquistado aos seus senhores feudais os primeiros direitos de
auto-administração. ( Nota de Engels à edição alemã de 1890 .)
**** Na edição de 1888: (como na Itália e na
Alemanha). ( N. da Ed. .)
***** Na edição de 1888 acrescenta-se: (como
em França). ( N. da Ed. .)
****** Na edição de 1848 acrescenta-se: e.
( N. da Ed. .)
A burguesia desempenhou na história um papel
altamente revolucionário.
A burguesia, lá onde chegou à dominação,
destruiu todas as relações feudais, patriarcais, idílicas. Rasgou sem
misericórdia todos os variegados laços feudais que prendiam o homem aos seus
superiores naturais e não deixou outro laço entre homem e homem que não o do
interesse nu, o do insensível «pagamento a pronto». Afogou o frémito sagrado da
exaltação pia, do entusiasmo cavalheiresco, da melancolia pequeno-burguesa, na
água gelada do cálculo egoísta. Resolveu a dignidade pessoal no valor de troca,
e no lugar das inúmeras liberdades bem adquiridas e certificadas pôs a
liberdade única , sem escrúpulos, de comércio. Numa palavra,
no lugar da exploração encoberta com ilusões políticas e religiosas, pôs a
exploração seca, directa, despudorada, aberta.
A burguesia despiu da sua aparência sagrada
todas as actividades até aqui veneráveis e consideradas com pia reverência.
Transformou o médico, o jurista, o padre, o poeta, o homem de ciência em
trabalhadores assalariados pagos por ela.
A burguesia arrancou à relação familiar o seu
comovente véu sentimental e reduziu-a a uma pura relação de dinheiro.
A burguesia pôs a descoberto como a brutal
exteriorização de força, que a reacção tanto admira na Idade Média, tinha na
mais indolente mandriice o seu complemento adequado. Foi ela quem primeiro
demonstrou o que a actividade dos homens pode conseguir. Realizou maravilhas
completamente diferentes das pirâmides egípcias, dos aquedutos romanos e das
catedrais góticas, levou a cabo expedições completamente diferentes das antigas
migrações de povos e das cruzadas (39).
A burguesia não pode existir sem revolucionar
permanentemente os instrumentos de produção, portanto as relações de produção,
portanto as relações sociais todas. A conservação inalterada do antigo modo de
produção era, pelo contrário, a condição primeira de existência de todas as
anteriores classes industriais. O permanente revolucionamento da produção, o
ininterrupto abalo de todas as condições sociais, a incerteza e o movimento
eternos distinguem a época da burguesia de todas as outras. Todas as relações
fixas e enferrujadas, com o seu cortejo de vetustas representações e intuições,
são dissolvidas, todas as recém-formadas envelhecem antes de poderem
ossificar-se. Tudo o que era dos estados [ou ordens sociais — ständisch ]
e estável se volatiliza, tudo o que era sagrado é dessagrado, e os homens são
por fim obrigados a encarar com olhos prosaicos a sua posição na vida, as suas
ligações recíprocas.
A necessidade de um escoamento sempre mais
extenso para os seus produtos persegue a burguesia por todo o globo terrestre.
Tem de se implantar em toda a parte, instalar-se em toda a parte, estabelecer
contactos em toda a parte.
A burguesia, pela sua * exploração do mercado
mundial, configurou de um modo cosmopolita a produção e o consumo de todos os
países. Para grande pesar dos reaccionários, tirou à indústria o solo nacional
onde firmava os pés. As antiquíssimas indústrias nacionais foram aniquiladas, e
são ainda diariamente aniquiladas. São desalojadas por novas indústrias cuja
introdução se torna uma questão vital para todas as nações civilizadas, por
indústrias que já não laboram matérias-primas nativas, mas matérias-primas oriundas
das zonas mais afastadas, e cujos fabricos são consumidos não só no próprio
país como simultaneamente em todas as partes do mundo. Para o lugar das velhas
necessidades, satisfeitas por artigos do país, entram [necessidades] novas que
exigem para a sua satisfação os produtos dos países e dos climas mais
longínquos. Para o lugar da velha auto-suficiência e do velho isolamento locais
e nacionais, entram um intercâmbio omnilateral, uma dependência das nações umas
das outras. E tal como na produção material, assim também na produção
espiritual. Os artigos espirituais das nações singulares tornam-se bem comum. A
unilateralidade e estreiteza nacionais tornam-se cada vez mais impossíveis, e
das muitas literaturas nacionais e locais forma-se uma literatura mundial.
* Na edição de 1848: pela. ( N. da
Ed. )
A burguesia, pelo rápido melhoramento de todos
os instrumentos de produção, pelas comunicações infinitamente facilitadas,
arrasta todas as nações, mesmo as mais bárbaras, para a civilização. Os preços
baratos das suas mercadorias são a artilharia pesada com que deita por terra
todas as muralhas da China, com que força à capitulação o mais obstinado ódio
dos bárbaros ao estrangeiro. Compele todas as nações a apropriarem o modo de
produção da burguesia, se não quiserem arruinar-se; compele-as a introduzirem no
seu seio a chamada civilização, i. é, a tornarem-se burguesas. Numa palavra,
ela cria para si um mundo à sua própria imagem.
A burguesia submeteu o campo à dominação da
cidade. Criou cidades enormes, aumentou num grau elevado o número da população
urbana face à rural, e deste modo arrancou uma parte significativa da população
à idiotia [ Idiotismus ] da vida rural. Assim como tornou
dependente o campo da cidade, [tornou dependentes] os países bárbaros e
semibárbaros dos civilizados, os povos agrícolas dos povos burgueses, o Oriente
do Ocidente.
A burguesia suprime cada vez mais a dispersão
dos meios de produção, da propriedade e da população. Aglomerou a população,
centralizou os meios de produção e concentrou a propriedade em poucas mãos. A
consequência necessária disto foi a centralização política. Províncias
independentes, quase somente aliadas, com interesses, leis, governos e
direitos alfandegários diversos, foram comprimidas numa nação, num
governo, numa lei, num interesse nacional de
classe, numa linha aduaneira.
A burguesia, na sua dominação de classe de um
escasso século, criou forças de produção mais massivas e mais colossais do que
todas as gerações passadas juntas. Subjugação das forças da Natureza,
maquinaria, aplicação da química à indústria e à lavoura, navegação a vapor,
caminhos-de-ferro, telégrafos eléctricos, arroteamento de continentes inteiros,
navegabilidade dos rios, populações inteiras feitas saltar do chão — que século
anterior teve ao menos um pressentimento de que estas forças de produção estavam
adormecidas no seio do trabalho social?
Vimos assim * que: os meios de produção e de
intercâmbio sobre cuja base se formou a burguesia foram gerados na sociedade
feudal. Num certo estádio do desenvolvimento destes meios de produção e de
intercâmbio, as relações em que a sociedade feudal produzia e trocava, a
organização feudal da agricultura e da manufactura — numa palavra, as relações
de propriedade feudais — deixaram de corresponder às forças produtivas já
desenvolvidas. Tolhiam a produção, em vez de a fomentarem. Transformaram-se em
outros tantos grilhões. Tinham de ser rompidas e foram rompidas.
* Na edição de 1848: porém. ( N. da
Ed. )
Para o seu lugar entrou a livre concorrência,
com a constituição social e política a ela adequada, com a dominação económica
e política da classe burguesa.
Um movimento semelhante processa-se diante dos
nossos olhos. As relações burguesas de produção e de intercâmbio, as relações
de propriedade burguesas, a sociedade burguesa moderna que desencadeou meios
tão poderosos de produção e de intercâmbio, assemelha-se ao feiticeiro que já
não consegue dominar as forças subterrâneas que invocara. De há decénios para
cá, a história da indústria e do comércio é apenas a história da revolta das
modernas forças produtivas contra as modernas relações de produção, contra as
relações de propriedade que são as condições de vida da burguesia e da sua
dominação. Basta mencionar as crises comerciais que, na sua recorrência
periódica, põem em questão, cada vez mais ameaçadoramente, a existência de toda
a sociedade burguesa. Nas crises comerciais é regularmente aniquilada uma
grande parte não só dos produtos fabricados como * das forças produtivas já
criadas. Nas crises irrompe uma epidemia social que teria parecido um
contra-senso a todas as épocas anteriores — a epidemia da sobreprodução. A
sociedade vê-se de repente retransportada a um estado de momentânea barbárie;
parece-lhe que uma fome, uma guerra de aniquilação ** universal lhe cortaram
todos os meios de subsistência; a indústria, o comércio, parecem aniquilados. E
porquê? Porque ela possui demasiada civilização, demasiados meios de vida,
demasiada indústria, demasiado comércio. As forças produtivas que estão à sua
disposição já não servem para promoção *** das relações de propriedade
burguesas; pelo contrário, tornaram-se demasiado poderosas para estas relações,
e são por elas tolhidas; e logo que triunfam deste tolhimento lançam na
desordem toda a sociedade burguesa, põem em perigo a existência da propriedade
burguesa. As relações burguesas tornaram-se demasiado estreitas para conterem a
riqueza por elas gerada. — E como triunfa a burguesia das crises? Por um lado,
pela aniquilação forçada de uma massa de forças produtivas; por outro lado,
pela conquista de novos mercados e pela exploração mais profunda de ****
antigos mercados. De que modo, então? Preparando crises mais omnilaterais e
mais poderosas, e diminuindo os meios de prevenir as crises.
* Na edição de 1848 acrescenta-se: mesmo.
( N. da Ed. )
** Na edição de 1848 acrescenta-se: guerra de
devastação. ( N. da Ed. )
*** Na edição de 1848 acrescenta-se: da
civilização burguesa e. ( N. da Ed. )
**** Nas edições de 1848 e 1872: dos. ( N.
da Ed. )
As armas com que a burguesia deitou por terra
o feudalismo viram-se agora contra a própria burguesia.
Mas a burguesia não forjou apenas as armas que
lhe trazem a morte; também gerou os homens que manejarão essas armas — os
operários modernos, os proletários.
Na mesma medida em que a burguesia, i. é, o
capital se desenvolve, nessa mesma medida desenvolve-se o proletariado, a
classe dos operários modernos, os quais só vivem enquanto encontram trabalho e
só encontram trabalho enquanto o seu trabalho aumenta o capital. Estes
operários, que têm de se vender à peça, são uma mercadoria como qualquer outro
artigo de comércio, e estão, por isso, igualmente expostos a todas as
vicissitudes da concorrência, a todas as oscilações do mercado.
O trabalho dos proletários perdeu, com a
extensão da maquinaria e a divisão do trabalho, todo o carácter autónomo e,
portanto, todos os atractivos para os operários * . Ele torna-se um mero
acessório da máquina ao qual se exige apenas o manejo mais simples, mais
monótono, mais fácil de aprender. Os custos que o operário ocasiona reduzem-se
por isso quase só aos meios de vida de que carece para o seu sustento e para a
reprodução da sua raça. O preço de uma mercadoria, portanto também do trabalho
(40) é, porém, igual aos seus custos de produção. Na mesma medida em que cresce
a repugnância [causada] pelo trabalho decresce portanto o salário. Mais ainda:
na mesma medida em que aumentam a maquinaria e a divisão do trabalho, na mesma
medida sobe também a massa ** do trabalho, seja pelo créscimo das horas de
trabalho seja pelo acréscimo do trabalho exigido num tempo dado, pelo
funcionamento acelerado das máquinas, etc.
* Na edição de 1848: o operário. ( N.
da Ed. )
** Na edição de 1888: carga. ( N. da
Ed. )
A indústria moderna transformou a pequena
oficina do mestre patriarcal na grande fábrica do capitalista industrial.
Massas de operários, comprimidos na fábrica, são organizadas como soldados. São
colocadas, como soldados rasos da indústria, sob a vigilância de uma hierarquia
completa de oficiais subalternos e oficiais. Não são apenas servos [ Knechte ]
da classe burguesa, do Estado burguês; dia a dia, hora a hora, são feitos
servos da máquina, do vigilante, e sobretudo dos * próprios burgueses
fabricantes singulares. Este despotismo é tanto mais mesquinho, mais odioso,
mais exasperante, quanto mais abertamente proclama ser o provento o seu **
objectivo.
* Na edição de 1848: o operário. ( N.
da Ed. )
** Na edição de 1888: carga. ( N. da
Ed. )
Quanto menos habilidade e exteriorização de
força o trabalho manual exige, i. é, quanto mais a indústria moderna se
desenvolve, tanto mais o trabalho dos homens é desalojado pelo das mulheres * .
Diferenças de sexo e de idade já não têm qualquer validade social para a classe
operária. Há apenas instrumentos de trabalho que, segundo a idade e o sexo, têm
custos diversos.
* Nas edições de 1848, 1872 e 1883
acrescenta-se: último. ( N. da Ed. )
Se a exploração do operário pelo fabricante
termina na medida em que recebe o seu salário pago de contado, logo lhe caem em
cima as outras partes da burguesia: o senhorio, o merceeiro, o penhorista
[ Pfandleiher * ], etc.
* Na edição de 1848 acrescenta-se: e crianças.
( N. da Ed. )
Os pequenos estados médios [ Mittelstände ]
até aqui, os pequenos industriais, comerciantes e rentiers * ,
os artesãos e camponeses, todas estas classes caem no proletariado, em parte
porque o seu pequeno capital não chega para o empreendimento da grande
indústria e sucumbe à concorrência dos capitalistas maiores, em parte porque a
sua habilidade é desvalorizada por novos modos de produção. Assim, o
proletariado recruta-se de todas as classes da população.
* Em francês no texto: os que possuem ou vivem
de rendimentos. ( N. da Ed. )
O proletariado passa por diversos estádios de
desenvolvimento. A sua luta contra a burguesia começa com a sua existência.
No começo são os operários singulares que
lutam, depois os operários de uma fábrica, depois os operários de um ramo de
trabalho numa localidade contra o burguês singular que os explora directamente.
Dirigem os seus ataques não só contra as relações de produção burguesas,
dirigem-nos contra os próprios instrumentos de produção; aniquilam as
mercadorias estrangeiras concorrentes, destroçam as máquinas, deitam fogo às
fábricas, procuram recuperar * a posição desaparecida do operário medieval.
Neste estádio os operários formam uma massa dispersa por todo o país e dividida
pela concorrência. A coesão maciça dos operários não é ainda a consequência da
sua própria união, mas a consequência da união da burguesia, a qual, para
atingir os seus objectivos políticos próprios, tem de pôr em movimento o
proletariado todo, e por enquanto ainda o pode. Neste estádio os proletários
combatem, pois, não os seus inimigos, mas os inimigos dos seus inimigos, os
restos da monarquia absoluta, os proprietários fundiários, os burgueses não
industriais, os pequenos burgueses. Todo o movimento histórico está, assim,
concentrado nas mãos da burguesia; cada vitória assim alcançada é uma vitória
da burguesia.
* Na edição de 1848 acrescenta-se: para si.
( N. da Ed. )
Mas com o desenvolvimento da indústria o
proletariado não apenas se multiplica; é comprimido em massas maiores, a sua
força cresce, e ele sente-a mais. Os interesses, as situações de vida no
interior do proletariado tornam-se cada vez mais semelhantes, na medida em que
a maquinaria vaiobliterando cada vez mais as diferenças do trabalho e quase por
toda a parte faz descer o salário a um mesmo nível baixo. A concorrência
crescente dos burgueses entre si e as crises comerciais que daqui decorrem
tornam o salário dos operários cada vez mais oscilante; o melhoramento
incessante da maquinaria, que cada vez se desenvolve mais depressa, torna toda
a sua posição na vida cada vez mais insegura; as colisões entre o operário
singular e o burguês singular tomam cada vez mais o carácter de colisões de
duas classes. Os operários começam por formar coalisões * contra os burgueses;
juntam-se para a manutenção do seu salário. Fundam eles mesmos associações
duradouras para se premunirem para as insurreições ocasionais. Aqui e além a
luta irrompe em motins.
* Na edição de 1848 acrescenta-se:
(Trade-Unions). ( N. da Ed. )
De tempos a tempos os operários vencem, mas só
transitoriamente. O resultado propriamente dito das suas lutas não é o êxito
imediato, mas a união dos operários que cada vez mais se amplia. Ela é
promovida pelos meios crescentes de comunicação, criados pela grande indústria,
que põem os operários das diversas localidades em contacto uns com os outros.
Basta, porém, este contacto para centralizar as muitas lutas locais, por toda a
parte com o mesmo carácter, numa luta nacional, numa luta de classes. Mas toda a
luta de classes é uma luta política. E a união, para a qual os burgueses da
Idade Média, com os seus caminhos vicinais, precisavam de séculos, conseguem-na
os proletários modernos com os caminhos-de-ferro em poucos anos.
Esta organização dos proletários em classe, e
deste modo em partido político, é rompida de novo a cada momento pela
concorrência entre os próprios operários. Mas renasce sempre, mais forte, mais
sólida, mais poderosa. Força o reconhecimento de interesses isolados dos
operários em forma de lei, na medida em que tira proveito das cisões da
burguesia entre si. Assim [aconteceu] em Inglaterra com a lei das dez horas
(41).
De um modo geral, as colisões da velha
sociedade promovem, de muitas maneiras, o curso de desenvolvimento do
proletariado. A burguesia acha-se em luta permanente: de começo contra a
aristocracia; mais tarde, contra os sectores da própria burguesia cujos interesses
entram em contradição com o progresso da indústria; sempre, contra a burguesia
de todos os países estrangeiros. Em todas estas lutas vê-se obrigada a apelar
para o proletariado, a recorrer à sua ajuda, e deste modo a arrastá-lo para o
movimento político. Ela própria leva, portanto, ao proletariado os seus
elementos * de formação próprios, ou seja, armas contra ela própria.
* Na edição de 1888 acrescenta-se: políticos e
gerais. ( N. da Ed. )
Além disto, como vimos, sectores inteiros da
classe dominante, pelo progresso da indústria, são lançados no proletariado, ou
pelo menos vêem-se ameaçadas nas suas condições de vida. Também estes levam ao
proletariado uma massa de elementos de formação * .
* Na edição de 1888 acrescenta-se: elementos
de esclarecimento e de progresso. ( N. da Ed. )
Por fim, em tempos em que a luta de classes se
aproxima da decisão, o processo de dissolução no seio da classe dominante, no
seio da velha sociedade toda, assume um carácter tão vivo, tão veemente, que
uma pequena parte da classe dominante se desliga desta e se junta à classe
revolucionária, à classe que traz nas mãos o futuro. Assim, tal como
anteriormente uma parte da nobreza se passou para a burguesia, também agora uma
parte da burguesia se passa para o proletariado, e nomeadamente uma parte dos
ideólogos burgueses que conseguiram elevar-se a um entendimento teórico do
movimento histórico todo.
De todas as classes que hoje em dia defrontam
a burguesia só o proletariado é uma classe realmente revolucionária. As demais
classes vão-se arruinando e soçobram com a grande indústria; o proletariado é o
produto mais característico desta.
Os estados médios [ Mittelstände ]
— o pequeno industrial, o pequeno comerciante, o artesão, o camponês —, todos
eles combatem a burguesia para assegurar, face ao declínio, a sua existência
como estados médios. Não são, pois, revolucionários, mas conservadores. Mais
ainda, são reaccionários * , procuram fazer andar para trás a roda da história.
Se são revolucionários, são-no apenas à luz da sua iminente passagem para o
proletariado, e assim não defendem os seus interesses presentes, mas os
futuros, e assim abandonam a sua posição própria para se colocarem na do
proletariado. —
* Nas edições de 1848, 1872 e 1883
acrescenta-se: pois. ( N. da Ed. )
O lumpenproletariado, esta putrefacção passiva
das camadas mais baixas da velha sociedade, é aqui e além atirado para o
movimento por uma revolução proletária, e por toda a sua situação de vida
estará mais disposto a deixar-se comprar para maquinações reaccionárias.
As condições de vida da velha sociedade estão
aniquiladas já nas condições de vida do proletariado. O proletário está
desprovido de propriedade; a sua relação com a mulher e os filhos já nada tem
de comum com a relação familiar burguesa; o trabalho industrial moderno, a
subjugação moderna ao capital, que é a mesma na Inglaterra e na França, na
América e na Alemanha, tirou-lhe todo o carácter nacional. As leis, a moral, a
religião são para ele outros tantos preconceitos burgueses, atrás dos quais se
escondem outros tantos interesses burgueses.
Todas as classes anteriores que conquistaram a
dominação procuraram assegurar a posição na vida já alcançada, submetendo toda
a sociedade às condições do seu proveito. Os proletários só podem conquistar as
forças produtivas sociais abolindo o seu próprio modo de apropriação até aqui e
com ele todo o modo de apropriação até aqui. Os proletários nada têm de seu a
assegurar, têm sim de destruir todas as seguranças privadas * e asseguramentos
privados.
* Nas edições de 1848, 1872 e 1883: toda a
segurança privada até aqui. ( N. da Ed. )
Todos os movimentos até aqui foram movimentos
de minorias ou no interesse de minorias. O movimento proletário é o movimento
autónomo da maioria imensa no interesse da maioria imensa. O proletariado, a
camada mais baixa da sociedade actual, não pode elevar-se, não pode
endireitar-se, sem fazer ir pelos ares toda a superstrutura [ Überbau ]
das camadas que formam a sociedade oficial. Pela forma, embora não pelo
conteúdo, a luta do proletariado contra a burguesia começa por ser uma luta
nacional. O proletariado de cada um dos países tem naturalmente de começar por
resolver os problemas com a sua própria burguesia.
Ao traçarmos as fases mais gerais do
desenvolvimento do proletariado, seguimos de perto a guerra civil mais ou menos
oculta no seio da sociedade existente até ao ponto em que rebenta numa
revolução aberta e o proletariado, pelo derrube violento da burguesia, funda a
sua dominação.
Toda a sociedade até aqui repousava, como
vimos, na oposição de classes opressoras e oprimidas. Mas para se poder oprimir
uma classe, têm de lhe ser asseguradas condições em que possa pelo menos ir
arrastando a sua existência servil. O servo [ Leibeigene ]
conseguiu chegar, na servidão, a membro da comuna, tal como o pequeno burguês
[ Kleinbürger ] a burguês [ Bourgeois ] sob o
jugo do absolutismo feudal. Pelo contrário, o operário moderno, em vez de se
elevar com o progresso da indústria, afunda-se cada vez mais abaixo das
condições da sua própria classe. O operário torna-se num indigente [ Pauper ]
e o pauperismo [ Pauperismus ] desenvolve-se ainda mais
depressa* do que a população e a riqueza. Torna-se com isto evidente que a
burguesia é incapaz de continuar a ser por muito mais tempo a classe dominante
da sociedade e a impor à sociedade como lei reguladora as condições de vida da
sua classe. Ela é incapaz de dominar porque é incapaz de assegurar ao seu
escravo a própria existência no seio da escravidão, porque é obrigada a
deixá-lo afundar-se numa situação em que tem de ser ela a alimentá-lo, em vez
de ser alimentada por ele. A sociedade não pode mais viver sob ela [ou seja,
sob a dominação da burguesia], i. é, a vida desta já não é compatível com a
sociedade.
* Nas edições de 1848, 1872 e 1883:
rapidamente. ( N. da Ed. )
A condição essencial* para a existência e para
a dominação da classe burguesa é a acumulação da riqueza nas mãos de privados,
a formação e multiplicação do capital; a condição do capital é o trabalho
assalariado. O trabalho assalariado repousa exclusivamente na concorrência
entre os operários. O progresso da indústria, de que a burguesia é portadora,
involuntária e sem resistência, coloca no lugar do isolamento dos operários
pela concorrência a sua união revolucionária pela associação. Com o desenvolvimento
da grande indústria é retirada debaixo dos pés da burguesia a própria base
sobre que ela produz e se apropria dos produtos. Ela produz, antes do mais, o
seu** próprio coveiro. O seu declínio e a vitória do proletariado são
igualmente inevitáveis.
* Nas edições de 1848, 1872 e 1883: mais
essencial. ( N. da Ed. )
** Nas edições de 1848 e 1872: os. ( N. da Ed. )

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