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35 ANOS APÓS A QUEDA DA URSS: QUANDO OS SEUS ADMINISTRADORES QUERIAM TORNAR-SE SEUS PROPRIETÁRIOS

Se milhões votaram em um referendo para manter a URSS e o socialismo, porque desapareceu?

Durante anos, o fim soviético foi-nos explicado como uma "vitória natural para o mercado". Mas outra leitura do historiador americano Roger Keeran e do investigador e ensaísta Thomas Kenny mostra algo mais incisivo e crítico: uma elite burocrática convertida, reformas mal geridas e uma maioria cidadã que ainda queria manter a União e o socialismo. O nosso colaborador Manuel Medina tenta desvendar as chaves do seu livro "Socialismo Traído".

 POR MANUEL MEDINA (*)

    Em 8 de dezembro de 1991, os líderes de Rússia, Ucrânia e Bielorrússia, Boris Yeltsin, Leonid Kravchuk e Stanislav Shushkevich assinaram os "Acordos de Belavezha", em que esses três líderes declararam por conta própria que a URSS tinha deixado de existir e deram lugar à Comunidade de Estados Independentes. Algumas semanas depois, o processo seria legalmente consumado.

   Durante 35 anos o argumento nos foi repetido de que a União Soviética desapareceu porque sua economia foi um desastre, porque ninguém mais acreditava nela e porque o capitalismo provou ser o único sistema possível. Esse era a história perfeita para os vencedores do Guerra Fria: limpo, simples e moralmente tranquilizador.

   Mas a história real é muito menos gentil.

    No livro "Socialismo traído. Por trás do colapso da União Soviética - de quem download completo Semanal das Ilhas Canárias oferece-os a partir deste mesmo page —, Roger Keeran e Thomas Kenny, dois professores universitários americanos apoiam uma tese muito diferente: a URSS não entrou em colapso por causa dos erros da sua liderança, não só por causa da traição dos burocratas que tinham assumido o aparato do Estado soviético. Também caiu porque alguns daqueles que deveriam ter corrigido essas falhas graves pararam de defender o sistema e começaram a preparar-se para compartilhar sua herança.

    Não foi, de acordo com Keeran e Kenny, o fracasso de um modelo económico. Foi a decomposição de um Estado a partir de dentro.

   Depois de 1991, a queda soviética foi apresentada como um direito natural. O mercado teria derrotado o planejamento de forma limpa. A liberdade teria substituído a opressão. A história teria falado.

  Essa versão tinha uma vantagem óbvia: absolveu todos os especificamente responsáveis. Sim, URSS foi condenada sempre, ninguém destruiu nada. Ninguém saqueou nada. Ninguém transformou o poder político em fortuna privada. Tudo teria sido inevitável.

    No entanto, o União Soviética continuou a ser uma superpotência militar, industrial e científica. Tinha alfabetizados a massas imensas, garantiram o pleno emprego durante décadas, construiu um gigantesco sistema de saúde e capacidades tecnológicas verdadeiramente admiráveis sustentadas.

    Ela tinha problemas sérios: burocracia, escassez, corrupção, lentidão produtiva e esgotamento ideológico. Mas uma estrutura com semelhante peso histórico não desaparece por fadiga mecânica. Ela desmorona quando seus pilares internos cedem.

A ECONOMIA NAS SOMBRAS

   Um desses pilares começou a rachar muito antes 1991. Desde a segunda metade de cinquenta, estava crescendo furtivamente uma economia paralela feita de favores, subornos, desvio de mercadorias, contactos pessoais e negócios semi-clandestinos.

   No início parecia uma deformação simples do sistema. Nada sério. Então tornou-se um segundo normal. Milhões de pessoas aprenderam isso. muitas coisas foram melhor alcançadas fora da lei. E milhares de funcionários compreenderam, simultaneamente, que o controlo dos recursos públicos poderá tornar-se uma fonte mágica de rendimento privado.

   Esse processo foi letal. Não só para as perdas materiais, mas porque ele ensinou uma lição política devastadora: o comum poderia ser usado como saque. O estado estava a falar de igualdade enquanto a vida cotidiana recompensava a influência. Quando as regras escritas valem menos do que as ocultas, a autoridade começa a apodrecer. E o que é muito pior, os valores da moralidade socialista começam na rachadura. 

QUANDO OS ADMINISTRADORES QUERIAM SER PROPRIETÁRIOS

   As fábricas, minas, redes de energia e grandes empresas pertenciam formalmente a todos povo soviético. Mas quem realmente os administrava era uma vasta camada de diretores, tecnocratas e quadros políticos.

   Durante as últimas décadas da história da URSS, esses homens tinham comando, prestígio e privilégios mas não propriedade. Eles dirigiam algumas empresas que não podiam vender. Eles controlavam a riqueza isso não lhes pertencia.

   Até uma parte deles queria ultraparssa essa fronteira. Sim já conduziam informações, contatos e recursos, por que continuar sendo administradores? Por que não se tornar proprietários?

   Foram incubados chaves para o colapso subsequente. O problema não estava sozinho uma burocracia ineficiente. Foi, além disso, uma burocracia que estava começando a olhar propriedade coletiva como ativos pendentes de distribuição.

    Muitos dos vencedores futuros dos anos noventa não saíram do nada. Ao longo das décadas dos anos 50, 60, 70 e 80, estava se formando dentro do próprio sistema antigo.

GORBACHEV E A PORTA ABERTA

    Mikhail Gorbachev chegou ao poder em 1985 com um diagnóstico: a URSS precisava mudanças urgentes. O crescimento desacelerou, o aparelho estava envelhecido e o sistema tinha perdido a enorme energia que o caracterizara no passado.

    Mas o problema era outro: reformado sem controle que beneficiaram dessas reformas. Um debate político foi aberto devido à fraqueza, que afetou o Partido Comunista, descentralizou decisões, concedeu maior autonomia territorial e alterou a economia sem construir uma alternativa coerente.

    O resultado foi explosivo. O sistema antigo perdeu a autoridade antes de nascer um novo. A economia parou de obedecer ao centro. As repúblicas começaram a desafiar Moscou. O Partido fraturou-se. E aqueles que esperavam enriquecer no novo cenário viram chegar a sua hora. Gorbachev, que disse que queria renovar a União acabou desmantelar os mecanismos que a mantinham unida.

O REFERENDO QUE DESMANTELA MENTIRAS

    O 17 de março de 1991 ocorreu um evento que raramente é mencionado nas versões oficiais. Em referendo sobre a continuidade do socialismo e da União Soviética como uma federação renovada, perto do 76% dos eleitores nas Repúblicas participantes apoiaram a sua manutenção e a manutenção do socialismo.

    Esses dados dinamitam décadas de propaganda. A URSS não desapareceu porque o seu povo a odiava unanimemente ou estava insatisfeito com o socialismo. Milhões queriam mudanças, certamente. Melhor economia e menos burocracia. Mas o que eles não queriam, e assim o expressaram, era destruir socialismo ou o Estado que lhes era comum.

     A população distinguiu perfeitamente entre reforma e liquidação. Muitas elites, não. Enquanto milhões de cidadãos votaram pela preservação de uma União transformada e do socialismo, líderes republicanos, pessoal administrativo do Estado e novos candidatos para se tornarem proprietários, já estavam a pensar noutra coisa: soberania própria, controle recursos e distribuição de poder. A ruptura veio, então, de cima, não de baixo.

CAPITALISMO COMO SAQUE

   A promessa subsequente foi brilhante no papel: democracia, mercado e prosperidade. A realidade era diferente.

    A produção industrial despencou. A inflação acabou com as economias de vida. Salários e pensões perderam valor. A pobreza disparou. A esperança de estabilidade desapareceu.

    Ao mesmo tempo, nasceu uma nova aristocracia econômica: os oligarcas. Eles não apareceram como resultado de uma competição limpa. Muitos vieram de redes de negócios soviéticas tardias, dispositivos administrativos ou círculos que souberam apropriar-se dos bens públicos durante as privatizações aceleradas. O que pertencera a todos, passou para as mãos de muito poucos. Para milhões de pessoas, o capitalismo não veio como liberdade, mas como pilhagem com a linguagem moderna.

O QUE 1991 NÃO RESOLVEU

    A implosão soviética não prova uma qualquer alternativa ao capitalismo, é impossível. Mostra algo muito mais concreto e mais difícil: nenhum sistema sobrevive quando quem o gere deixa de acreditar nele e eles começam a calcular como enriquecer com a ruína.

    A URSS tinha erros graves e conquistas imensuráveis. Ela industrializou um país com um atraso feudal, nazismo derrotado e garantiu direitos sociais básicos em escala gigantesca. Mas também permitiu uma burocracia que crescia separada da sociedade e setores dispostos a transformar ativos públicos em ativos privados. Aquilo era o nó fatal.

    Trinta e cinco anos depois, as perguntas permanecem intactas: quem é dono da riqueza, quem realmente decide, como as elites são controladas e o que acontece quando os guardiões do comum querem se tornar os novos proprietários.

    A União Soviética desapareceu em 1991. A luta para responder a estas perguntas continua.

SEGUNDA ENTREGA: "O QUE VEIO A SEGUIR"

FONTE PRINCIPAL

   Roger Keeran e Thomas Kenny, Socialismo traído. Por trás do colapso da União Soviética (1917-1991), Editorial de Ciências Sociais, Havana, 2013.

 (*) Manuel Medina é professor de História e divulgador de temas relacionados com essa mesma matéria

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