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O Presidente e o Coronavírus

 

Imagem de Vasco Gargalo

Escrito em Março de 2020:

Portugal vai entrar na fase dita “de mitigação” dentro de horas ou dias, disse a ministra; a OMS acaba de declarar que o surto do novo coronavírus atingiu o nível de pandemia; o Presidente Marcelo avisa que não pode haver crises no seu último ano de mandato, estando já em auto-quarentena por causa do vírus; o presidente da Assembleia da República continua a recusar que as reuniões do plenário sejam realizadas à porta fechada, contrariando as pressões do próprio partido e das outras bancadas; o primeiro-ministro Costa está em véspera de decretar o encerramento de todas as escolas do país, o que irá afectar uma população de 1,5 milhões de alunos; e o Tony Carreira adiou o concerto que estava previsto para este Sábado e que seria o primeiro após um longo interregno. O caso é sério!

O Presidente já declarou solenemente que não quer eleições antecipadas, nem crises em geral, por causa da estabilidade do regime político e da economia e, principalmente, coisa que não explicita, por estar não só em fim de mandato mas se encontrar em fase avançada de lançamento de recandidatura. Ter de dissolver a Assembleia da República, convocar eleições antecipadas e, eventualmente, propiciar maioria absoluta ao PS para poder governar a seu belo prazer, não era só um atentado à sua estratégia de algum controlo sobre o Governo, como lhe poderia estragar a imagem - basta o Covid-19! E a imagem vai-se promovendo com atitudes de disseminação de “afectos”, o que quer que isso seja, e de alguma humildade, falsa e mal disfarçada, com a sua auto-reclusão a propósito de conter a propagação do vírus, como mais exemplo para todo o bom português do que possuir alguma idade e ter sido submetido recentemente a pequena intervenção cardíaca. Considerar esta atitude de poltronice ou cobardia política, aliás, congruente com a sua personalidade, não passará de maledicência e de má-fé.

Esta pandemia parece que vem mesmo a calhar para as nossas elites, a nível interno; e para o grande capital, a nível mais global. Em termos de nós por cá, poderá ser um bom pretexto para o Governo PS/Costa agravar medidas de austeridade, uma austeridade que terá ficado em banho-maria com o a ida do PS para a esfera governativa, com alguma aceitação da opinião pública e, preocupação de todos os governos que temos tido depois do 25 de Abril, sem que o povo se revolte. Será uma boa desculpa para a desaceleração da economia, com a revisão da meta do PIB em baixa, contenção da despesa pública com a Saúde e a Educação e salários da Função Pública e reformas e aposentações e diversos subsídios sociais. A recapitalização da banca, de certeza, que não será prejudicada, o Novo Banco não deixará de receber o seu quinhão já prometido, e haverá sempre dinheiro para as empresas, ou através do Orçamento do Estado ou dos Fundos Europeus que, no fim da linha, será sempre o povo a pagar.

Se uma parte da economia vier a ressentir-se com a crise do coronavírus, nomeadamente o turismo, no entanto, outra se desenvolverá, seja laboratórios e farmácias a facturar, assim como clínicas e hospitais privados onde já devem estar com máquina de calcular nas mãos, ou super-mercados a ficarem num ápice com as prateleiras vazias, como já aconteceu em Madrid, devido ao alarmismo inculcado na opinião pública pelas televisões e aparições constantes e inadequadas de governantes. Os patrões mais afectados pela diminuição do negócio já receberam do Governo a garantia de que os lucros não diminuirão: luz verde para o lay-off, com os salários dos trabalhadores a serem pagos pela Segurança Social, ou seja, por eles próprios, e linha financeira de apoio que já vai em 200 milhões de euros, bem como outros benefícios fiscais. A nível global, a crise económica será mascarada com a pandemia, esta terá as costas largas para explicar as mazelas do capitalismo, com a paragem da produção a servir às mil maravilhas o velho problema da produção em excesso capitalista, um dos factores das crises cíclicas, que já são um estado permanente. E, pelo menos para já, não será necessário uma guerra a nível mundial.

Antes da declaração da crise e do aumento significativo do número de casos de infectados pelo coronavírus a nível mundial, os sinais de grave crise da economia capitalista a nível global já eram mais que evidentes. As economias da China, da Itália e da França já mostravam que se encontravam em queda: na China o índice PMI (Purchasing Manufacturing Index) do instituto Caixin/Markit teve a maior queda desde 2004; a Itália sofrera o seu 17º declínio mensal consecutivo na atividade manufactureira, com o governo a anunciar a injecção de 3,6 bilhões de euros na economia; e a actividade fabril a contrair-se, com o PMI industrial a cair 1,3 pontos, na França. A economia capitalista mundial já diminuíra para quase uma velocidade de perda (stall speed) de 2,5% ao ano, os EUA a crescer apenas 2% ao ano, apesar das medidas e fanfarronices do presidente Trump, e o conjunto da UE e o Japão apenas 1%. Lógico, e como reflexo, o índice Dow Jones de Wall Street experimentou a maior queda de sempre no dia 27 de Fevereiro, com uma perda acumulada superior a 15%. O FMI, no seu último relatório sobre a estabilidade financeira global, prevê a possibilidade de uma recessão tão ou mais severa quanto à de 2009, que resultaria em empresas com 19 triliões (10 elevado a 18) de dólares de dívida pendente mas com lucros insuficientes para lhe fazer face: uma bancarrota geral do capitalismo. Realidade que confirma uma das leis do capitalismo que é a tendência da taxa de lucro para zero. Ora, uma pandemia vem mesmo a calhar, o azar é se acontecerá o mesmo que ocorreu no século XIV com a peste negra, que terá ceifado entre 50 a 200 milhões de vidas humanas na Europa e na Ásia, e que marcou o fim da Idade Média e a ascensão da burguesia, é que esta agora poderá marcar o fim da burguesia e do seu sistema económica de exploração humana.

A pandemia do Covid-19 justificará também uma maior exploração sobre os trabalhadores, e sobre os povos em termos globais, e com uma maior manipulação da opinião pública, e inclusivamente dos próprios trabalhadores, como já se vê entre nós a respeito da greve dos trabalhadores do Hospital de Braga. Os trabalhadores deste hospital, mais precisamente os assistentes técnicos, limitam-se a reivindicar uma questão básica que é apenas beneficiar de um acordo coletivo de trabalho, questão que tem sido constantemente protelada pela administração que sempre actuou de má-fé. O Governo e os patrões, a começar pelo Estado, desde há muito que têm vindo a atacar um direito elementar dos trabalhadores, o direito à contratação colectiva, coisa que tem sido cada vez mais negada pelas sucessivas revisões da Lei do Trabalho; e agora, graças ao coronavírus, vai surgindo, pelo menos em alguma blogosfera e redes sociais, opinião favorável à criminalização dos trabalhadores e das suas organizações sindicais, porque se estarão a aproveitar de forma oportunista de uma situação má para o país, confundindo que em Portugal existem vários “países”, grosso modo, dois: o dos patrões e dos trabalhadores assalariados. As televisões têm sido os instrumentos de eleição para a intoxicação da opinião pública, simultaneamente vão aumentando as audiências, com maiores proventos da publicidade, isto é, vão lucrando com o mal dos outros, e não deixam de salientar a toda a hora a hipotética ineficiência do SNS, preparando o terreno para uma maior intervenção dos serviços privados de saúde, cujos acionistas não deixarão de enriquecer graças à ocasião.

Esta pandemia é a segunda declarada pela Organização Mundial de Saúde desde 2009, a primeira foi a famosa gripe das aves (H1N1 ou Gripe A), e depois daquela data já avançou com situações de “emergência internacional”, com o vírus Ébola (2013), com o ressurgimento da Poliomielite (2014) e com o Zika (2016). Isto mostra que o capitalismo, devido à sua própria natureza, só visando o lucro, é incapaz de promover a saúde das populações, e do indivíduo em particular se não fizer parte dos 1% dos detentores da riqueza, seja através da prevenção primária, isto é, da saúde que não dá dinheiro, seja por meio do tratamento (prevenção secundária) que, movendo-se na área da medicina curativa e da indústria farmacêutica, não gere as mais-valias desejadas. E a OMS mostra, de igual modo, que possui uma agenda ditada pelos grandes grupos económicos que dominam o sector da Saúde e pelas grandes potências capitalistas, tendo tardado a declarar a situação de pandemia e, ao que parece, também nada ter aprendido com as situações passadas, a começar pelas mais recentes.

Não deixa de ser curioso notar que é precisamente em países de capitalismo mais desenvolvido que se detetam maior número de infectados e de suspeitos de infecção: China, segunda potência económica mundial, foi onde a pandemia se terá iniciado; Coreia do Sul, um dos “tigres asiáticos”; Itália, Alemanha, França, Espanha, na dita “democrática e civilizada” União Europeia; e Irão, um dos considerados países do “eixo-do-mal”, que poderá ser a excepção. Países, quase todos eles, onde seria suposto as pessoas possuírem um elevado grau de Educação para a Saúde e Serviços de Saúde de topo. Ainda estamos para ver o que irá acontecer no país do Tio Sam onde a maioria do povo não tem acesso a Serviços de Saúde devido, entre outras razões, à inexistência de um SNS.

A pandemia do coronavírus servirá de argumentário para desculpabilizar a crise profunda e crónica do capitalismo e tentar justificar os meios para a minorar, uma crise com causas e mecanismos bem conhecidos, terá quanto muito contribuído para a destapar e antecipar. As medidas que vierem a ser postas em prática terão sempre um efeito perverso: contribuir para um maior agravamento do estado comatoso de toda a economia capitalista, desde os países mais desenvolvidos aos mais atrasados; agravamento que irá acontecer a breve trecho. A moeda tem sempre duas faces.

Os Bárbaros
11 de Março 2020

https://cronicasdobarbaro.blogspot.com/2020/03/o-presidente-e-o-coronavirus.html

 

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